UMA MULHER QUE IMPUNHA (MUITO) RESPEITO

É muito difícil falar sobre quem não se conhece. Sobre pessoas com que não se conviveu. Eu não convivi com dona Isabel de Castro Mello. Só ouvi falar dela. Seu nome foi uma constante nas dezenas de depoimentos colhidos ao longo dos últimos 18 meses.

Em março de 2018, quando realizamos a primeira campanha do Centro de Memória, durante o período de recadastramento de aposentados e pensionistas, o nome de dona Isabel foi mencionado por mais de 50% das pessoas que nos visitaram (e por tantos com quem nos encontramos depois). Foi nesse período também que perdi, por poucos – muito poucos – dias, a oportunidade de conhecê-la. Sim, ela esteve no Ed. Millenium para fazer pessoalmente seu recadastramento em 2018. Até hoje não consigo acreditar em tamanho desencontro. Estávamos no mesmo andar. Mas acredito que não era pra ser. Deixemos assim.

Isabel de Castro Mello, TRT-2
Isabel de Castro Mello, em foto de sua pasta funcional.

Quando entrei em contato, na semana seguinte a sua visita ao TRT-2, quem atendeu foi seu sobrinho, Roberto, que assumiu o papel de procurador da servidora aposentada. Foi ele quem contou sobre o quanto sua tia amava a instituição para a qual dedicou toda uma vida. Sobre o quanto dona Isabel (e ele a chamava assim) era uma pessoa forte, mas muito querida. Difícil conseguir imaginar uma senhorinha de 96 anos de idade (àquela época), fragilizada pela idade – e pela saúde. A dona Isabel que eu montava com os pedacinhos de histórias que me contavam não seria assim.

Uma mulher de respeito

Nascida em 1º de dezembro de 1921, na cidade de Santos, Isabel de Castro Mello foi nomeada para o TRT-2 em 20 de outubro de 1956, em uma época que se entrava por indicação, como interina, aos 35 anos de idade.

Isabel de Castro Mello, TRT-2, Ipase
Inscrição de dona Isabel de Castro Mello no Ipase (Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado)

No ano seguinte, prestou concurso interno, efetivando-se como auxiliar judiciária. No mesmo concurso, entrou sua irmã, Maria Julieta de Castro Mello, a Mima.

concurso auxiliar judiciário, TRT-2
Classificação do concurso interno de 1957 para o cargo de auxiliar judiciário do TRT-2, publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo, de 23 de março de 1957.

Sua primeira lotação foi a 6ª Junta de Conciliação e Julgamento. Mas era uma administradora. Sorte do TRT-2 porque demorou pouco tempo para que ela migrasse da atividade-fim para a atividade-meio. Em 1959, ela já se transferia para o serviço administrativo. Em 1962, já era chefe da Seção de Orçamento e Controle de Pagamento, sendo a Ordenadora da Despesa na execução orçamentária e na programação financeira do Tribunal.

Isabel de Castro Mello
Uma das páginas da pasta funcional da servidora Isabel de Castro Mello.

Chegou a ser diretora da Secretaria Administrativa e da Secretaria de Pessoal do Regional (cargos equivalentes ao diretor-geral Administrativo e ao diretor da Secretaria de Gestão de Pessoas).

Nada de flores no parapeito

Dona Isabel era uma pessoa dura, pelo que contam. Bastante rígida, não se contentava com nada além do que o melhor. A melhor apresentação, a mais organizada, a mais econômica, a mais célere. Alguns a amavam, outros a odiavam. Tudo dependia de como lidavam com a forma forte e firme que ela tinha de exigir somente o melhor. Em uma época em que poucas mulheres detinham o poder, dona Isabel, já em 1962, executava seu papel com muita atitude.

Era muito conhecida e respeitada, tanto por servidores quanto por magistrados. E temida também. Por ambos. Contam que, quando a sede do Tribunal passou para a rua da Consolação, nada escapava aos olhos de dona Isabel. Até para colocar flores era preciso sua autorização. “Sem brincadeiras” (alguns contam, aos risos).

Foi ela, por sinal, a grande responsável pela organização da mudança da Rio Branco para a Consolação. Deixou tudo tão em ordem que em poucos – pouquíssimos! – dias, tudo estava pronto, antes mesmo do esperado, para surpresa de todos: da imprensa, dos advogados, do juiz federal Márcio José de Moraes. Mas não foi surpresa para ninguém do TRT-2. Por aqui,  todo mundo sabia: missão dada para dona Isabel era missão cumprida.

Falam ainda que, quando dona Isabel passava, mudava-se a atitude de uma sala toda: revistas eram estrategicamente posicionadas para debaixo de máquinas datilográficas, conversas eram interrompidas e colunas ficavam magicamente eretas, recostadas nas cadeiras. Nada de conversas porque dona Isabel estava vindo.

Outros contam que por vezes dona Isabel passava apenas para checar a limpeza das salas. Com a ponta de seus dedos, checava o pó. Eram só suspiros. Lembram ainda que ela usava terno e que seu apelido era general. Pode ser… tudo seriam formas de impor (muito) respeito.

Isabel de Castro Mello, TRT-2
Dona Isabel é captura, em imagem de agosto de 1983, em momento descontraído, no prédio do Ed. Sede do Tribunal, já na rua da Consolação, em foto pertencente ao acervo pessoal da servidora aposentada Dayse Conrado Bacchi.

Outros, no entanto, viam uma outra dona Isabel. Lembram do quanto ela era uma pessoa especial. E têm saudosas recordações. Falam sobre a mulher visionária que, no início da década de 80, lia sobre Informática no jornal Folha de S.Paulo e já pensava em implantar a informatização no TRT-2. Quando ninguém falava sobre isso. Quando ela própria já tinha passado dos 60 anos…

É inegável o carinho e zelo com que dona Isabel tratava seu querido Tribunal. Em um tempo em que todos se conheciam, o TRT-2 era como uma grande família. E era mais ou menos assim que dona Isabel levava o seu trabalho… cuidando de perto, como quem cuida de um dos seus. Como quem cuida de sua casa. E era esse seu trabalho como diretora administrativa. Cuidar da casa.

Em sua pasta funcional constam seis portarias de elogio, que reconhecem a competente, dedicada e eficiente colaboração. Ao aposentar-se, em 1985, foi condecorada com uma medalha da Ordem do Mérito, que ela guardava com muito orgulho, como contou seu sobrinho, Roberto, ao doar alguns dos itens do acervo pessoal de dona Isabel ao Centro de Memória.

Isabel de Castro Mello, TRT-2
Itens do acervo pessoal de dona Isabel de Castro, doado pelo sobrinho Roberto ao Centro de Memória.

Ficam as histórias

Dona Isabel estava, havia algum tempo, em um hospital, sob cuidados constantes. Por algumas vezes, tentamos visitá-la, mas a saúde, já bastante debilitada, não permitiu.

Para, de certa forma, homenageá-la, uma das vitrines da exposição “Memória do TRT-2: uma construção coletiva” traz uma carteira funcional de dona Isabel, pertencente ao acervo do Regional.

Isabel de Castro Mello, TRT-2
Vitrine da exposição “Memória do TRT-2: uma construção coletiva”, com a carteira funcional de dona Isabel de Castro Mello.

A senhora de 97 anos, quase 30 deles dedicados ao TRT-2, faleceu na noite de 3 de julho de 2019.

Não foi casada, nem teve filhos. O Tribunal foi seu grande amor e a ele dona Isabel dedicou-se com afinco. Infelizmente, não pudemos conhecê-la. Ficaram apenas as histórias e as lembranças daqueles que com ela conviveram – e que agora compartilham conosco.Design sem nomeMemórias Trabalhistas é uma página criada pelo Centro de Memória do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, setor responsável pela pesquisa e divulgação da história do TRT-2. Neste espaço, é possível encontrar artigos, histórias e curiosidades sobre o TRT-2, maior tribunal trabalhista do país.

Acesse também o Centro de Memória Virtual e conheça nosso acervo histórico, disponível para consulta e pesquisa.

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