A BARONESA DO TRT-2

De descendentes de barões e marquesas a irmãos de pintores famosos. Foram muitos os relatos que ouvimos nos últimos tempos de que o Tribunal, em sua origem, possuía, em seu quadro, servidores com sobrenomes de famílias tradicionais de São Paulo. Alguns eram boatos, brincadeiras que surgiram na época. Outros, realidade (como a irmã de Cândido Portinari, Maria Portinari Carvalho, que foi servidora de nosso Regional).

O fato é que nunca tínhamos conhecido pessoalmente nenhuma dessas personagens. E ficamos mais curiosos ainda quando descobrimos uma servidora que era chamada de “a Baronesa”: Dayse Conrado Bacchi, nossa ilustre convidada do terceiro episódio do projeto “Memórias Narradas”.

Assista ao teaser

O caminho até a Baronesa do TRT-2 (descobrindo nossa entrevistada)

Chegamos até Dayse de uma forma curiosa. Em março de 2018, fizemos pela primeira vez uma pequena campanha durante o recadastramento de servidores aposentados: um panfleto, convidando nossos colegas aposentados a nos conhecer e contar as suas histórias (naquela época, ainda estávamos no 12º andar – atualmente, caso alguém queira nos visitar, estamos no 2º andar – sala 205).

Uma das servidoras que teve em suas mãos aquele panfleto simples, e que resolveu aceitar o nosso convite, foi Tânia Bueno de Lima Nisi. Tânia entrou em nosso Regional em 1982, aposentando-se em 2010, no cargo de oficial de justiça. Uma curiosidade muito bacana é que Tânia é mãe de Lídia, primeira criança a ser matriculada na creche do TRT-2, lá na inauguração, em 1990.

Enquanto contava a sua história, citou muitos nomes, como o do nosso primeiro homenageado, Luiz da Silva Falcão. Mas, dentre as pessoas citadas, uma foi lembrada com muito carinho. Tânia chegou a chamá-la de “fada-madrinha”. Uma chefe que cuidou dela, a ensinou muito e a inspirou. Chamou a atenção o apelido que essa pessoa recebia: “a Baronesa”.

“Eu caí no lugar certo, na hora certa. Minha diretora era a Dayse Bacchi, a Baronesa. Ela me fez enxergar um mundo diferente, que eu não conhecia. A minha família era muito humilde. E ela me fez acreditar. Foi minha fada-madrinha.

Tânia Bueno de Lima Nisi, durante depoimento ao Centro de Memória do TRT-2, em 2018

Ao relembrar a sua história, dificuldades que passou no Tribunal e como as superou, Tânia se emociona. E com os olhos ainda úmidos pelas lembranças de sua trajetória, acompanhados por uma voz feliz, orgulhosa de ter chegado onde chegou, também demonstrou respeito e felicidade ao citar uma amiga tão querida. Aquilo aguçou muito nossa curiosidade, não apenas pelo apelido que Dayse recebia, mas também pelo carinho e importância que Tânia deixou transparecer em sua fala.

Após termos ouvido pela primeira vez sobre a Baronesa, sempre que tínhamos oportunidade de conversar com algum servidor aposentado, ou mais antigo da casa, tentávamos levantar informações sobre ela. Até que chegou o momento de conhecê-la: uma senhora elegante, sorridente e com um humor muito afiado.

Mas que história tenho para contar?

Temos o hábito de fazer uma espécie de relatório ao fim de cada atividade externa, seja uma visita técnica, uma entrevista, uma gravação. Fazemos isso porque cada um que participa tem uma visão, uma interpretação diferente da conversa, mas quando juntamos essas partes, temos um retrato muito mais rico e orgânico do nosso trabalho. Como cada um faz o seu relatório meio que de forma livre, opto por escrever o meu sempre em tom narrativo, “enfeitado”, porque acho que capta melhor meus  sentimentos e impressões. O trecho abaixo é retirado de meu relatório, escrito em 30 de maio de 2019, dia seguinte à gravação com Dayse.

Chegamos ao apartamento de Dayse em uma tarde nublada de São Paulo. O prédio antigo acomoda apartamentos espaçosos, a arquitetura de sua fachada denunciava que a construção é de décadas passadas. O saguão principal, com piso de tábuas corridas, em mogno avermelhado, abre-se para um pequeno pátio onde bancos de alvenaria se impõem rígidos, atemporais, tal qual a construção do próprio prédio. Os elevadores localizados à esquerda do saguão mantém características de outra época,  talvez da década de 50 ou 60, dando um certo charme e convidando quem entra nele para uma breve viagem ao tempo.

Dayse nos recebe na porta do elevador, e nos convida a entrar em seu apartamento, que exala história. A senhora que nos recebe, elegante, educada, com um sorriso amigável, não aparenta seus 79 anos. Sua voz firme e olhar brilhante fazem jus ao apelido: “a Baronesa”.

Após uma breve conversa na sala, seguido de um aconchegante café, agora acompanhados por duas de suas amigas do Tribunal, Tânia e Inis, as histórias e risadas se desenrolam com uma naturalidade impressionante. Ao fim, convidamos a protetora do baronato para gravarmos, registrarmos sua história. E somos surpreendidos com um “mas que história eu tenho para contar?”.

Percebíamos que Dayse estava muito reticente em ser gravada, a pergunta dela só reforçou essa impressão. Ficamos desconfiados, inclusive, de que ela achou que esqueceríamos da gravação após o café (sim, ela tentou nos ludibriar com um delicioso café e bolo!). Após um certo trabalho de convencimento (somos persistentes!), Dayse cedeu aos nossos pedidos e aceitou gravar conosco.

E é impressionante o quanto de histórias ouviríamos naquela tarde. Sentada na cadeira da sala de jogos de seu apartamento, Dayse nos contou um pouco de sua experiência no TRT-2, seu trabalho, seus amigos e como nosso Tribunal fez parte de sua vida. Tudo isso com muitos sorrisos e irreverência.

Dayse Conrado Bacchi, Centro de Memória do TRT-2, História Oral, Memórias Narradas
Equipe do Centro de Memória do TRT-2 prepara-se para entrevistar Dayse Conrado Bacchi.

Com vocês, Dayse Conrado Bacchi, a Baronesa do TRT-2:

A transcrição da íntegra da entrevista com Dayse Conrado Bacchi para o projeto “Memórias Narradas” você pode ler aqui.

Uma família constituída pelo tempo

Dayse nasceu em Ribeirão Preto, no interior paulista, em 1939, tendo mudado ainda criança para São Paulo. É filha de Luiz Gonzaga Ribeiro Conrado e Lais Sant’anna Conrado. Descende de uma família numerosa e muito importante no interior do estado de São Paulo.

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Encontro da Família Ribeiro Conrado, no início da década de 50. Em destaque do lado esquerdo da foto estão Dayse, com pouco mais de 10 anos, seu pai Luiz Gonzaga e sua mãe Laís Sant´anna. Foto: acervo Dayse Conrado Bacchi.

Por parte dos grandes feitos da família Conrado, podemos citar a fundação da cidade de Santa Rita do Passa Quatro, por Ignácio Ribeiro do Vale, trisavô de Dayse. Já o núcleo familiar “Ribeiro Conrado”, formado com o casamento de Eulália com o coronel João de Goés Conrado (avós de Dayse) teria muita influência sobre a cidade de Franca, no interior de São Paulo. João de Goés esteve ligado diretamente com o desenvolvimento da indústria calçadista de Franca, e seus filhos (tios de Dayse), com a medicina local. Não à toa os Ribeiro Conrado dão nome a diversos logradouros da cidade. Ainda, em pesquisa rápida, é possível achar outras referências a familiares de Dayse, como, por exemplo, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel (primo de Dayse), o criador do simpático automóvel brasileiro, o Gurgel.

A numerosa família Ribeiro Conrado, que descende da união de Eulália e João de Goés, promoveu diversos encontros, rendendo ótimos retratos, de diferentes épocas.

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Encontro da Família Ribeiro Conrado, na década de 60. Do lado esquerdo da foto, em destaque, está Dayse agora uma jovem adulta. Foto: acervo Dayse Conrado Bacchi.

Em 1960, pouco tempo após ter ingressado em nosso regional, Dayse casaria-se com Domingos Bacchi Filho, também descendente de uma família tradicional – no caso dele, italiana. Com ele Dayse formaria o núcleo familiar Conrado Bacchi, do qual nossa entrevistada mostra orgulhosamente fotos, enquanto contava histórias familiares.

E família é uma palavra constante nesse texto. Seja representando o orgulho pelo sobrenome, representando o amor que une, ou pela cumplicidade e confiança que é forjada no dia a dia das relações de trabalho. E independente da família, a de sangue ou a do trabalho, Dayse protegeu, cultivou e amou todas elas.

Infância e adolescência

Dayse estudou em colégios conceituados na capital paulista. Como nos revela em sua entrevista, aqui na capital, ela realizou seus estudos iniciais no tradicional Colégio Stafford, um internato que funcionava no bairro dos Campos Elíseos.

O colégio ocupava um imponente casarão construído entre 1890 e 1894, localizado na alameda Cleveland nº 601, esquina com a alameda Nothmann, que fora residência de Henrique Santos Dumont (irmão mais velho de Alberto Santos Dumont). Henrique era um bem-sucedido fazendeiro, considerado, à época, um dos reis do café. Com a morte de Henrique, sua viúva, Amélia Dumont, venderia, em 1926, o imóvel para Blandina Ratto, que seria a fundadora e a primeira diretora do colégio.

Palacete Família Santos Dumont, Casarão Alameda Cleveland, Colégio Stafford, Santos Dumont, Museu da Energia de São Paulo
Frente do casarão da alameda Cleveland, que receberia o Stafford, em 1927. Atualmente o casarão abriga o Museu da Energia de São Paulo. No portão é possível ver Santos Dumont em seu carro. Foto: Acervo Museu da Energia de São Paulo.

Localizado no (à época) nobre bairro dos Campos Elíseos, o primeiro bairro planejado da capital paulista, seu público era formado pelos filhos da elite paulistana. A educação para as moças era claramente destinada ao preparo daquilo que era esperado de uma “boa esposa”. É possível ver em um dos boletins da época notas por comportamento, ordem e polidez. O colégio funcionaria até o ano de 1951. O prédio foi tombado como patrimônio histórico em 2002. Atualmente, o casarão abriga o Museu da Energia de São Paulo.

Palacete Família Santos Dumont, Casarão Alameda Cleveland, Colégio Stafford, Santos Dumont, Museu da Energia de São Paulo
Boletim de aluna do Colégio Stafford. Foto: Acervo Museu da Energia de São Paulo.

Dayse estudaria na instituição até 1948, ou como se lembra: “até a primeira comunhão”. Do Stafford, seguiria os estudos para outro colégio tradicional, o Teixeira Branco, localizado na rua Guarará, no Jardim Paulista.

Externato Teixeira Branco, escolas antigas de São Paulo
Frente do Externato Teixeira Branco, na rua Gurarás. Foto: Acervo Página Externato Teixeira Branco.

Dayse se lembra de sua infância e adolescência com felicidade, dos colégios que estudou, das férias na fazenda da família, no interior. Para ela: “Tudo muito gostoso, uma infância muito tranquila”.

Na adolescência, continuaria seus estudos no Maria Imaculada e os finalizaria no Mackenzie, com o curso de secretariado.

Assim como qualquer jovem, Dayse conciliava os estudos durante a adolescência com opções de lazer. Costumava frequentar o Clube Atlético Paulistano, que oferecia práticas desportivas e entretenimento para as famílias associadas, além de participar de eventos sociais em locais como o Jóquei Clube de São Paulo. Como eram locais por onde grande parte da elite paulistana circulava, não é difícil achar registros em jornais e revistas da época.

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Dayse em evento no Jóquei Club de São Paulo, em 1954. Foto: Acervo Revista O Sombra, edição 134, 1954.

A jovem Dayse até figurou em algumas edições da revista “Paulistano”, que ainda é editada pelo tradicional clube desportivo. Na edição de fevereiro de 1956, é possível ver nossa protagonista, então com 16 anos, já demonstrando sua opinião e suas aspirações futuras. Devido a sua beleza e elegância, até chegou a concorrer  ao título de “Charm Girl 1957” no clube.

Em meio aos bailes da época, aos filmes no cinema e eventos sociais, a jovem Dayse cresceu e formou-se em secretariado. Embora Dayse tenha frequentado colégios bem tradicionais, em uma época em que era tido como “natural” as jovens serem dependentes financeiramente e dedicadas aos homens, os planos de Dayse para o início de sua vida adulta eram um pouco diferentes: aos 19 anos, uma de suas prioridades era conseguir seu primeiro emprego.

Tropeçando com o pé direito

Com o diploma de secretariado nas mãos, a jovem Dayse pensava em começar a trabalhar. Mas onde? Nossa entrevistada conta rindo da conversa que teve com seu pai, de como chegou à conclusão de que seria uma boa ideia trabalhar no Tribunal. E, em uma manhã chuvosa, Dayse Conrado dirigiu-se à rua Rêgo Freitas, nº 527, apresentando-se na recepção para conversar com o então presidente do Tribunal, Hélio Tupinambá Fonseca.

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Confraternização do Tribunal. Ao centro da imagem, seguranda a taça, está Hélio Tupinambá Fonseca, presidente do TRT-2 nas gestões 1954-1955, 1955-1957 e 1957-1959. Foto: Acervo Isabel de Castro Mello.

Como já abordamos em outros textos e em vídeos passados, em 1959 não havia concursos públicos para ingresso no Tribunal, as seleções eram feitas por meio de entrevistas. Embora o pai de Dayse, Luiz Gonzaga, tivesse dito que não conversaria com Hélio Tupinambá, ela desconfia de que, de alguma forma, ele tivesse alertado o presidente, da visita de sua filha. Luiz Gonzaga conhecia Hélio Tupinambá do próprio Tribunal, uma vez que chegou a ser juiz vogal nos primórdios da Justiça do Trabalho.

Hélio não sabia sobre o que Dayse iria tratar com ele, mas recebeu prontamente a jovem aspirante. Quando ele a convidou para entrar em sua sala, mal sabia que Dayse entraria no Tribunal com o pé direito… mesmo que tropeçando! Dayse nos conta essa divertida história na entrevista (em 1’15” do vídeo é possível ver nossa protagonista se divertindo enquanto relembra esse evento).

Apesar da entrada um pouco atrapalhada (mas cheia de graciosidade) no Tribunal, Dayse traçaria seu caminho com passos firmes e seriedade, construindo uma longa e bela carreira em nosso Regional. Uma nova fase se abriria para Dayse, com desafios, descobertas e muita, mas muita, datilografia!

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Detalhe da pasta funcional de Dayse Conrado Bacchi.

Máquinas datilográficas, fitas furadas, carbono e muito trabalho

Em 1959, o organograma do TRT-2 era bem mais simples que o atual. Existiam o Serviço de Processos e o Serviço Administrativo, cada um com um chefe, e, acima deles, apenas o diretor da Secretaria da Presidência, cargo que era ocupado pelo nosso já conhecido colega, Mário Pimenta de Moura.

Os Serviços, por sua vez, eram subdivididos em diferentes seções. No caso de nossa entrevistada, ela  seria lotada na Seção de Certidões e Acórdãos, seção em que ficaria até a sua aposentadoria 1987, contando então com 29 anos de trabalhos prestados ao Tribunal. Cabe lembrar que àquela época era concedida a famosa “licença prêmio” aos servidores que apresentavam dedicada assiduidade: a cada cinco anos sem faltas eram concedidos três meses de licença. Esse tempo de licença prêmio, caso não fosse usufruído, poderia ser usado para diminuir o tempo necessário de contribuição para aposentadoria, uma vez que são contados em dobro nesse cálculo. Graças aos anos de trabalho sem faltas (e à conversão das licenças prêmio não usufruídas), Dayse conseguiu aposentar-se um pouquinho mais cedo.

A Seção de Certidões e Acórdãos estava submetida ao Serviço de Processos, cuja diretoria era ocupada por Ivone Casali, em uma época em que existiam poucas mulheres ocupando cargos de chefia.

Em sua primeira lotação, Dayse colocou em prática muito do que havia aprendido no curso de secretariado, principalmente a datilografia. O primeiro teste em seu emprego no Tribunal seria supervisionado por Ivone, que pediu para que ela transcrevesse um documento de 11 páginas. Dayse conta rindo que não utilizou o verso das folhas em sua transcrição, o que teria causado a perda de todo o trabalho…

Dayse lembra que o volume de trabalho era muito grande, e absolutamente manual. Manual porque as reproduções das certidões eram feitas inteiramente datilografadas, e depois conferidas pelos servidores. Atualmente, com todos os recursos tecnológicos de que dispomos, é até difícil imaginar como tudo isso era realizado.

Embora já existisse, em 1959, a cópia xerográfica, o aparelho e o processo para realizá-lo ainda eram muito caros. Para se ter uma ideia, o primeiro aparelho de cópias que tivera sucesso comercial considerável foi a copiadora Xerox 914, lançada justamente em 1959. Desnecessário dizer que um aparelho desses, importado, dificilmente daria o ar da sua graça em um órgão público como o TRT-2, sempre às voltas com dificuldades orçamentárias…

xerox 914
Propagandas da recém-lançada Xerox 914, em 1959, primeira máquina xerográfica a obter sucesso comercial representativo e cravar de vez a marca como sinônimo de cópias.

Para nós, que estamos habituados com computadores, transcrever um texto para um editor nem parece tão trágico assim. Mas pare para pensar: e quando eram necessárias 200, 300 cópias, como no caso de dissídios de categorias profissionais mais numerosas? Não havia impressora para imprimir diversas cópias. Entrava em ação o famigerado papel-carbono: em grupinhos de, no máximo, quatro cópias, explica Dayse. A limitação era necessária para manter a legibilidade do documento. E é claro, outro detalhe muito importante: a cópia era feita por uma pessoa, assim, passível de erros na transcrição. Logo, era preciso conferir as cópias com o original! Esses servidores tinham que estar muito bem entrosados e seguros de seu trabalho de transcrição, afinal de contas, não poderiam dar-se ao luxo de ter retrabalho diante do volume de tarefas.

Ou seja, um trabalho que hoje, com os recursos tecnológicos que temos, parece banal, na época mobilizava um número considerável de servidores que diuturnamente datilografavam (e conferiam) laudas e laudas. 

Uma família constituída pelo trabalho

Dayse seguiu exercendo suas funções e eventualmente alcançou a chefia da Seção de Certidões e Traslados em 1964. É nesse mesmo ano que a administração do Tribunal, assim como a segunda instância, são transferidos para o edifício da rua Brigadeiro Tobias, nº 722. Se a estrutura do prédio da rua Rêgo Freitas não comportava a divisão dos setores em espaços distintos, o novo imóvel ofereceria melhores condições, ao menos espaciais. E nesse contexto é esboçada uma melhor organização dos setores, com uma maior divisão entre eles.

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Ato de nomeação de Dayse Conrado Bacchi como chefe da Seção de Cerridões e Traslados, de 02 de abril de 1964.

Embora o prédio da Brigadeiro Tobias oferecesse mais espaço, ele era, assim como o imóvel da  Rêgo Freitas, adaptado para receber o Tribunal. As condições eram, no entanto, um pouco melhores do que as do prédio anterior. Já a localização, perto da estação da Luz, segundo Dayse (e outros colegas que já conversaram conosco), não era das mais acolhedoras… Estávamos ainda longe das instalações ideais.

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Foto atual da fachada do prédio da rua Brigadeiro Tobias, 722, que abrigou o TRT-2 em 1964.

Mas nesse edifício, hoje abandonado e deteriorado, é que Dayse construiria firmemente sua posição de liderança. Ela começou a reunir pessoas para a sua equipe, pessoas com quem passaria um bom tempo do seu dia a dia – e da sua vida também. Pessoas que compartilhavam a responsabilidade de criar e cuidar daquele setor que representaria tanto para ela. Foi naquele prédio, no cargo de chefe da Seção de Certidões e Traslados, que, paulatinamente, reuniu uma equipe que seria a sua família no Tribunal. 

Dayse e o Tribunal ainda passariam por outros endereços, como o da avenida Rio Branco (entre a Timbiras e a Aurora, como nos lembra nossa entrevistada), convivendo com o centro de São Paulo, que, àquela altura (na década de 70), já estava em processo de degradação. Um ambiente “não muito agradável”, como diria Dayse. Finalmente, em 1980, a sede do Tribunal é transferida para a rua da Consolação. Com ela vai também a Seção de Certidões e Traslados.

Em 1981, a Seção de Dayse agregaria também o Arquivo Geral do Tribunal, transformando-se em Seção de Certidões, Traslados e Arquivo Geral. Com o aumento de atribuições e de serviço sob sua tutela, Dayse agora assumiria a posição de diretora, posição que exerceria até a sua aposentadoria em 1987.

Durante essa trajetória, entre mudanças de endereços, atribuições e nomes de Seção, diferentes pessoas passaram pela vida Dayse. E elas fazem parte dessa família constituída pela cumplicidade e confiança, essa família constituída pelo trabalho.

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Dayse e a equipe da Seção de Certidões

“Éramos uma família”. Essa frase é recorrente em muitas de nossas entrevistas e conversas com servidores mais antigos do TRT-2. Para nós, que temos menos tempo de casa, fica uma sensação engraçada: será que não somos uma família hoje? Maior e mais numerosa, com certeza. “Mas naquela época era diferente”.

E olhando para trás, reconstruindo imagens de um passado pelos olhos de quem nos conta, era diferente mesmo. Só para termos uma ideia, quando Dayse entrou no Regional, toda a parte administrativa, os serviços auxiliares, a segunda instância e as varas da capital ficavam alocadas em um pequeno prédio, no famoso número 527 da rua Rêgo Freitas. É como se todos as unidades do Tribunal que temos hoje na capital fossem agrupadas em um imóvel de apenas cinco andares. Naturalmente, as pessoas tinham mais contato umas com as outras, formavam vínculos mais facilmente.

Hoje, com décadas passadas, e todo desenvolvimento e crescimento do Tribunal, é muito difícil que conheçamos pessoas para além do nosso convívio diário. Isso não é necessariamente ruim, ou melhor do que o retrato pintado por servidores mais antigos, é apenas uma consequência da evolução desse colosso jurídico que é o TRT-2.

O fato é que os vínculos que Dayse criou são duradouros. Ela mantém contato com as amigas do Tribunal mesmo após sua aposentadoria. Não raro, conversa com elas, orgulha-se de sempre lembrar do aniversário de cada uma das amigas. “Cada vez que eu telefono para uma delas é uma festa!”, gaba-se a nossa entrevistada.

Dayse Conrado Bacchi, Centro de Memória do TRT-2, História Oral, Memórias Narradas
Inis Aparecida Viana, Dayse Conrado Bacchi e Tânia Bueno de Lima Nisi: uma amizade que se iniciou no ambiente de trabalho e que continua até hoje na aposentadoria.

Dayse fez 80 anos no final de 2019, e, nas fotos da comemoração, é fácil identificar amigas que fez no TRT-2, amigas que não poderiam faltar nessa data tão especial.

“Ainda sinto como se fossem meus filhos”, explica Dayse – para justificar o carinho e a consideração que tem pelas pessoas que trabalharam sob sua tutela. E em nossa conversa estavam presentes duas dessas grandes amigas, Tânia e Inis, que transparecem esse amor recíproco. Elas são taxativas ao dizer o quanto Dayse era responsável e as ajudou e ensinou em suas funções. Também são testemunhas da elegância, seriedade e cultura da Baronesa… e do seu senso de humor.

Dayse Conrado Bacchi, Centro de Memória do TRT-2, História Oral, Memórias Narradas
Dayse em sua comemoração de aniversário de 80 anos. Ao seu lado, Tânia Bueno de Lima Nisi, sentada no lado direito da fotografia, Inis Aparecida Viana. Ambas tiveram Dayse como colega de trabalho no TRT-2.

A carta de despedida (saindo de fininho)

Quem olha Dayse à primeira vista percebe uma senhora elegante e séria. Mas, com o seu sorriso terno e seu humor afiado, é fácil classificá-la como uma digna representante dos melhores filmes de “humor inglês”: ostenta com habilidade piadas inteligentes e trocadilhos sincronizados. Ou, uma certa irreverência, como a própria gosta de dizer.

E o maior exemplo material dessa irreverência é sua saída do Tribunal, por ocasião de sua aposentadoria. Nossa entrevistada nos contou que não queria uma festa de despedida, por motivos pessoais. Ao que tudo indica, Dayse nunca foi muito fã dos holofotes, é uma pessoa reservada (inclusive deu uma bronca nesse que vos escreve por tirar fotos dela durante a entrevista… mas sempre com simpatia e bom humor).

Quando estava às vésperas de se aposentar, foi retirando cuidadosamente os objetos de sua sala, um a um. Uma ausência gradual. Talvez para que não sentissem sua falta, talvez para se preparar para a falta que sentiria daquele que havia sido o lugar onde trabalhou durante tantos anos. Ao final, Dayse deixou uma carta (datilografada, claro!) que escreveu na surdina, sem que seus funcionários – e amigos – percebessem. A carta em si é uma ode a essas amizades, regadas pelo companheirismo e pelo humor particular da Baronesa.

Carta_de_despedida

A Baronesa e o seu baronato

Durante a entrevista, Dayse disse que não tinha conhecimento do apelido. Pode ter surgido de sua origem, uma família “quatrocentona”, que frequentava os badalados eventos da elite paulistana. Pode ter surgido da sua elegância, porte e cultura, apresentados no trabalho. Ou uma combinação de ambos, como saber?

O fato é que a Baronesa do Tribunal era uma mulher elegante, bem educada, vinda de uma família tradicional, sim, mas que abraçou o trabalho no Tribunal, sua seção e seus colegas, como o seu próprio baronato. Uma mulher que durante quase três décadas trabalhou e promoveu sua seção e seus servidores, ajudando e sendo ajudada, aprendendo e ensinando. O apelido que denota hierarquia, no fim do dia, era carregado por uma pessoa que promovia uma relação extremamente cordial e horizontal com as pessoas com quem trabalhava. E a maior prova disso é que, embora seu “reinado” na seção tenha terminado, a coroa tenha sido passada adiante, as relações e o respeito continuaram, atravessando o tempo, a história e diferentes “reinos”.

Todos temos uma história para contar

Essa pergunta é uma constante em nossa breve experiência com nosso projeto de história oral. Geralmente, nossos entrevistados acham que não têm histórias interessantes ou importantes para contar, talvez fiquem acanhados, encabulados com nosso interesse.

Mas todos temos uma história para contar. Lembranças da infância, aventuras da adolescência, descobertas e superações no trabalho, na vida adulta. Realizações, pequenas ou grandes, fragmentos de um mosaico que às vezes fica embaçado com o passar do tempo, mas que com uma polidinha (basta só um incentivo!) acaba por revelar uma linda história que merece (e deve) ser relembrada e guardada.

Olhar para as nossas origens, refletir sobre o nosso desenvolvimento e orgulhar-se do que nos tornarmos. Se essa não é a melhor forma de marcarmos no mundo nossa existência, desconheço qual seja. E, no final do dia, a vida sempre será feita de histórias, aquela luta eterna para jamais sermos esquecidos.

Então, para quem chegou até o fim desse texto, digo: Dayse, Baronesa do TRT-2, muitas histórias você tem para contar. Continue a contá-las, com seu jeito de nobre inglesa, com seu sorriso maternal de avó, sentada em seu trono ou na cadeira da sala de jogos. Porque a sua história é também a história de muitas outras pessoas, e também do nosso querido Tribunal.Design sem nomeMemórias Trabalhistas é uma página criada pelo Centro de Memória do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, setor responsável pela pesquisa e divulgação da história do TRT-2. Neste espaço, é possível encontrar artigos, histórias e curiosidades sobre o TRT-2, maior tribunal trabalhista do país.

Acesse também o Centro de Memória Virtual e conheça nosso acervo histórico, disponível para consulta e pesquisa.

2 comentários

  1. Trabalho maravilhoso da equipe do Centro de Memória do TRT 2.
    Histórias deliciosas que contribuem para a preservação da memória.
    Parabéns!

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