QUATRO MESES DE TELETRABALHO

Em 17 de julho, o Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região completa quatro meses de teletrabalho. Exceto por algumas poucas áreas, cujas atividades devem ser feitas, impreterivelmente, de forma presencial, estamos todos trabalhando remotamente. O que era a exceção, em 16 de março de 2020, tornou-se regra.

Estarmos em casa – para alegria de alguns e tristeza de outros – tornou-se necessário: como forma de protegermos a nós, a nossa família, aos nossos colegas, aos advogados, aos jurisdicionados. Um ato de solidariedade, de humanidade, de cidadania. E de respeito à vida (a nossa e a dos outros).

Agentes do TRT-2, em maio de 2020. Foto: acervo TRT-2.

Sabíamos, desde logo, o quanto era importante o distanciamento social, o quão necessário era o achatamento da curva de infectados para que pudéssemos auxiliar o sistema de saúde a garantir o atendimento à população. Tínhamos conhecimento do que acontecia em outros países. Tínhamos exemplos. E agimos rápido. Porque sabíamos que era necessário fazermos a nossa parte.

Aqui no TRT-2, lidamos com um universo gigantesco de pessoas. Pegando apenas um recorte, só no prédio do Fórum Ruy Barbosa, nosso maior fórum, circulam mais de 25 mil pessoas diariamente. Muitas delas pegam transporte público para ali chegarem (e estamos falando do Terminal Barra Funda, um dos mais movimentados da cidade!), pegam fila nos elevadores (apesar da existência de oito elevadores para o atendimento ao público!), e que, invariavelmente, estão lotados, aguardam em salas repletas de gente. Não era possível.

Era preciso agir – e começar a mudar

Dois dias após a pandemia ter sido anunciada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 11 de março, o TRT-2 publicou uma resolução com medidas temporárias para a prevenção e combate à transmissão do coronavírus (Resolução GP/CR nº 02/2020). A resolução considerava como caso suspeito qualquer pessoa que apresentasse febre ou problemas respiratórios, afastando-a, e colocava em quarentena aqueles que tivessem visitado países com casos de coronavírus ou que tivessem tido contato com pessoas infectadas. Além disso, suspendia o atendimento presencial ao público por 14 dias e os leilões até o dia 30 de março. Como consequência, também ficaram suspensas as audiências de conciliação nos Cejuscs – os Centros Judiciários de Métodos Consensuais de Solução de Disputas.

Aquele fim de semana (de 14 e 15 de março), porém, tinha sido agitado pelo mundo. Mais e mais casos de infectados apareciam. São Paulo já passava dos mil casos suspeitos, mais de 100 confirmados (metade do número total do país). Números que parecem tão singelos diante do que acompanhamos hoje. O governo estadual (que pouquíssimos dias antes reafirmava que nada mudaria em São Paulo, até aquele momento, em decorrência do novo coronavírus) já havia anunciado, na sexta-feira, 13, o fechamento gradual das escolas, assim como o cancelamento de eventos com mais de 500 pessoas. Na Europa, os países começavam a controlar suas fronteiras.

A segunda-feira, 16 de março, início da suspensão do atendimento presencial, foi também o Dia D no TRT-2. Após uma reunião do Corpo Diretivo, formada pelos desembargadores Rilma Aparecida Hemetério (presidente), Jucirema Maria Godinho Gonçalves (vice-presidente administrativa), Rafael Edson Pugliese Ribeiro (vice-presidente judicial) e Luiz Antonio Moreira Vidigal (corregedor), foi assinada a Resolução Corpo Diretivo nº 1/2020: o TRT-2 estava oficialmente em teletrabalho.

Foi preciso dar um passo para trás e tentar enxergar a situação, de forma um pouco mais distanciada. Ver o que acontecia ao redor. E tomar uma decisão que fosse a mais acertada possível, naquele momento. E assim ficou definido. Colocamos todos em casa. Suspendemos prazos e audiências, além do atendimento presencial (o que já até estava previsto na resolução do dia 13 de março). Mas agora havia um prazo maior: 30 de março (o que seria alterado para 30 de abril e depois para prazo indeterminado).

Não sabíamos, naquele momento, como o vírus se comportava, como ele chegaria ao Brasil, como ele se espalharia. Era muito o começo. Só sabíamos que a experiência de outros países apontava para o distanciamento social como única opção de diminuir a catástrofe que o vírus poderia causar. Era também a recomendação da OMS. Infelizmente, não parecia haver outra solução.

O início das mudanças – na rotina e no trabalho

Pessoalmente, a minha sensação, naquele 16 de março, uma vez divulgada a decisão do Tribunal, era de pânico. Não pelo que o Tribunal havia definido, mas pela situação como um todo. Naquele dia, fui e voltei para o trabalho a pé (sim! Já estava com medo de aglomerações!).

Voltei para casa pensando no que deveria fazer, no que deveria comprar, em como seriam as coisas, trabalhar em casa (o que, para mim, seria um sonho, se não fossem as circunstâncias). Queria me esconder, fugir… Mas para onde, se o mundo todo vivia a mesma situação?

Fui ao supermercado. Comprei borrifadores, panos de chão, papel higiênico (em super promoção! mas apenas um pacote, tá?), álcool em gel 70 (já inflacionado e em suas últimas unidades). Queria álcool líquido, mas algumas prateleiras já estavam vazias. A do álcool era uma delas. Meu marido já tinha comprado máscaras no fim de semana, já imaginando que aconteceria uma corrida desenfreada por elas (assim como de fato ocorreu). Naquele momento, o uso de máscaras ficava restrito aos profissionais de saúde e às pessoas infectadas. O Ministério da Saúde não recomendava que outras pessoas as utilizassem (o receio é que faltassem máscaras, inclusive com pedido insistente para que a população evitasse a compra de máscaras N95 – demorou um pouco até que começassem a mencionar a máscara reutilizável, de tecido).

Aquele foi também o último dia em que usei um carro de aplicativo. Lembro-me bem da conversa que tive com o motorista. Como os vidros estavam fechados, pedi para que ele abrisse a janela e desligasse o ar condicionado, pois tinha lido algo sobre a propagação do vírus ser maior em ambientes fechados, e na dúvida… Ao que ele me respondeu: “Na verdade, depende…”. Disse que tinha levado um médico naquele mesmo dia, que lhe tinha dito que era melhor que o vidro ficasse fechado para que o vírus não entrasse no carro. Confesso que até hoje não sei o que é melhor. Na dúvida, a gente evita.

Acredito que como qualquer outro setor nossa primeira ação, ainda no dia 16, foi programar o que seria feito. Na verdade, reprogramar. Alteramos prioridades, cronogramas. Postergamos projetos e adiantamos outros. Não sabíamos quanto tempo isso demoraria. Não sabíamos como seria o trabalho. Antes de deixarmos o Ed. Millenium, subimos na nuvem diversos dos nossos projetos, várias das nossas pesquisas. Assim, daríamos prosseguimento ao que estávamos fazendo, na medida do possível.

No dia seguinte, 17 de março, aquela ação do Tribunal (de interrupção da atividades presenciais) faria muito mais sentido, já que seria registrada a primeira morte de paciente infectado pelo coronavírus, em São Paulo (em junho, seria descoberto que, na verdade, a primeira morte teria ocorrido alguns dias antes, em 12 de março). Dia após dia, elas foram se tornando mais comuns. E a quantidade de infectados aumentando exponencialmente. Aos poucos também, começavam a aparecer notícias de pessoas próximas que haviam sido infectadas. Algumas, porém, não resistiram. Foi o caso de alguns colegas do TRT-2.

Não consigo encontrar um adjetivo que defina a sensação de pensar nas consequências de uma pandemia, como membro de um Centro de Memória. Afinal, dentre nossas atribuições como setor está o contato com servidores e magistrados aposentados. Nem é preciso muito para associá-los ao grupo de risco. Existe um medo, uma preocupação. Porque apesar de serem pessoas que eu mal conheço – ou que conheço há pouco tempo, elas se tornaram parte do meu dia a dia profissional. São pessoas pelas quais desenvolvi um carinho grande e com as quais me preocupo.

Como o telefone do Tribunal passou a ser transferido para o meu celular, ocasionalmente recebi ligações de aposentados. Cheguei a conversar com alguns, por mensagem ou telefone, em busca de informações para a produção de textos aqui para a página “Memórias Trabalhistas”. Impossível não perguntar sobre a situação em que estavam – se estavam bem e protegidos.

Nossa primeira publicação pós-pandemia, por sinal, foi exatamente sobre um grupo de amigos aposentados, o grupo Karavan. Conversei com Cora, personagem central daquele texto (e do grupo) algumas vezes. Foi ela quem me atualizou em alguns momentos. Sobre a melhora de uns e a piora de outros. É triste ver o que acontece sabendo que nada pode ser feito. A não ser o óbvio: ficar em casa, usar máscara se precisar ir para a rua, lavar as mãos, usar álcool 70… aquelas coisas que são repetidas como um mantra, diariamente.

Corina Maria Leite, Cora, grupo Karavan
A servidora aposentada Corina Maria Leite, a Cora. Sorriso no rosto e orgulho de sua história, ao lado de tantos amigos do grupo Karavan.

Atos, resoluções e portarias

Talvez a pior parte dessa pandemia seja a grande novidade que ela representa. Tivemos que adotar tantas medidas diversas para tentar enfrentá-la. Com o TRT-2, isso não foi diferente. Ao longo desse tempo, o Tribunal teve que alterar o plano originalmente traçado. As ações do Regional foram, sempre, amplamente divulgadas – no site e nas redes sociais do Tribunal. E regulamentadas por meio de atos, resoluções e portarias que embasavam tais decisões (Resolução Corpo Diretivo nº 1/2020Resolução Corpo Diretivo nº 2/2020Ato GP nº 7/2020Ato GP nº 8/2020).

Pelo país o mesmo se repetiu. Vários tribunais tomaram o mesmo rumo, ainda que descoordenadamente. As coisas começaram a ficar mais “organizadas” a partir de 19 de março, quando o CNJ estabeleceu critérios para o funcionamento padronizado dos órgãos do Poder Judiciário, por meio de uma resolução (Resolução CNJ nº 313/2020). O que seria seguido também pelo TST e pelo CSJT, em atos conjuntos (Ato Conjunto CSJT.GP. VP e CGJT. nº 1/2020 e Ato Conjunto CSJT.GP. VP e CGJT. nº 2/2020). Tudo era novidade. E aprendíamos diariamente – e ainda aprendemos, na verdade.

O distanciamento – e, por consequência, o teletrabalho – era necessário. Era preciso, no entanto, garantir o acesso à justiça, mesmo em tempos de pandemia. A população não poderia ser prejudicada ainda mais. E por mais que as decisões precisassem ser tomadas de forma rápida, não era possível fazer nada sem pensar muito bem, analisar a situação e dar condições para que servidores e magistrados pudessem trabalhar e servir adequadamente a população.

Não foi fácil, é verdade. No começo, entender como funcionaria essa história de teletrabalho – geral e irrestrito – foi estranho, para dizer o mínimo. Seriam necessárias adaptações em nossas vidas. Teríamos acesso à rede? Aos sistemas que utilizamos no dia a dia? Seria possível entrar em contato com as pessoas, no caso de alguma necessidade eventual? Sem falar que estamos em casa. Muitas pessoas dessa multidão de seis mil servidores e magistrados da 2ª Região não estavam prontas para isso. Fisicamente, eletronicamente, emocionalmente preparadas. Mudanças são difíceis. É fato. Mas quando não há outra opção e ela ocorre de um dia para o outro, a situação é mais complexa ainda.

“A Justiça não pode parar!”

(ministro Dias Toffoli, março de 2020)

Em 30 de março, prazo que havia sido estabelecido inicialmente para a suspensão dos trabalhos presenciais – e que já havia se mostrado um prazo impraticável -, o STF, na pessoa de seu presidente, o ministro Dias Toffoli, participou de um debate com a OAB sobre o papel da Justiça durante esses tempos de pandemia. A grande questão era a necessidade de continuidade dos trabalhos no Poder Judiciário.

Ministro Dias Toffoli. Foto: STF.

Afinal, então, como viabilizar a continuidade de nossos atos?

Foi apenas a partir de abril, com a publicação da Portaria nº 61/2020, em 31 de março, pelo CNJ, que instituiu uma plataforma emergencial de videoconferência para a realização de audiências e sessões, que as coisas começaram a ficar mais claras. O Ato Conjunto TST.GP.GVP.CGJT nº 159/2020, instituiu tal possibilidade de videoconferência também no âmbito do Tribunal Superior do Trabalho (depois revogado pelo Ato Conjunto TST.GP.GVP.CGJT nº 173/2020, que o consolidou). A ideia era não só regulamentar o trabalho remoto temporário e o funcionamento dos serviços judiciários não presenciais, prevenindo o contágio pelo novo coronavírus, mas também garantir o acesso à justiça.

Com tudo isso em mãos, o TRT-2 definiu a data em que seriam retomadas as audiências e sessões, de forma virtual e telepresencial: 4 de maio (Ato GP nº 7/2020, revogado pelo Ato GP nº 8/2020, alterado, por sua vez, pelo Ato GP Nº 9/2020 e depois pelo  Ato GP nº 11/2020).

Aos poucos, servidores e magistrados passaram a ser orientados quanto às novas ferramentas. Foram criados e recriados manuais, para auxiliar o download, instalação e uso de tais programas. O Service Desk, nosso sistema de auxílio à tecnologia da informação, esteve à disposição durante todo o tempo. Eles, sim, estavam trabalhando presencialmente.   

Para partes e advogados, a situação, olho eu, que pouco contato tive com a atividade-fim, deve ser ainda mais estranha. Nada de audiências, prazos suspensos no início… Observando comentários pelas redes sociais, imagino que não deva ser fácil. Mas é possível dizer qual é a melhor solução? A que vá melhor atender às determinações médico-sanitárias e aos anseios de todos?

O uso do meio digital

Atuar pelo meio eletrônico não é novidade no TRT-2. Desde dezembro de 2015, o Tribunal já trabalha de forma híbrida, com 100% dos novos processos apenas no formato eletrônico, via PJe, mas, mesmo assim, dando continuidade aos processos físicos que ainda restavam. Muita gente, portanto, já tinha familiaridade com o trabalho remoto.

Olhando hoje, é interessante observar que, em junho de 2019, o TRT-2 determinou a migração dos processos físicos que ainda tramitavam na primeira instância para o meio eletrônico, mediante o processo de digitalização – isso muito antes que qualquer ideia de pandemia rondasse os noticiários. Ao todo, foram 435 mil processos físicos digitalizados, o que permitiu que o TRT-2 terminasse o ano de 2019 de forma 100% digital. E foi exatamente essa experiência que fez com que trabalharmos remotamente em 2020, durante a pandemia, fosse possível e permitiu que a realização de atos pudesse se dar pelos meios eletrônicos – trabalho árduo, mas que se mostrou extremamente oportuno.

Recentemente, a Coordenadoria de Gestão Documental escreveu um artigo relatando sua experiência na virtualização desses processos e transmitiu uma live abordando o assunto (é possível ler a íntegra do artigo aqui e assistir à live feita pelos servidores Eduardo Rocha e Heroneudo Araújo).  

Um momento histórico

Vivemos um momento único, histórico. E somos (por que não dizer?) testemunhas desse período. Métodos de trabalho foram alterados, formas de relação tiveram que ser adaptadas, vivemos o mundo tecnológico e talvez, finalmente, nos demos conta, como indivíduos – e como instituição -, de que ele pode alterar as formas como nos relacionamos com o trabalho, com as pessoas, com as coisas, de uma maneira geral. Podemos estar diante de um “novo normal” – por mais clichê que isso tenha virado.

O que vemos hoje são videoaudiências (foram mais de 18 mil entre março e junho!); sessões telepresenciais das Turmas, do Pleno e do Órgão Especial; leilões virtuais (que arrecadaram mais de R$ 70 milhões de reais até junho de 2020); diversas audiências em dissídio coletivo, permitindo que negociássemos a interrupção de greves ou mesmo impedindo algumas de se inciarem; demos o direito do isolamento a trabalhadores do grupo de risco; fizemos acordos pré-processuais em conflitos relativo à covid-19 (o primeiro envolvendo um metroviário soropositivo) – e diversas conciliações; determinamos o fornecimento de máscara e álcool em gel para trabalhadores do setor de transporte urbano, e o mesmo para empresas de segurança; produzimos diversos vídeos para tentar auxiliar a população com suas dúvidas em relação ao trabalho durante tempos de pandemia; e ainda, de forma inédita, destinamos verba a um Fundo Municipal de Saúde para ações de combate à pandemia do coronavírus, com a condenação de uma grande empresa, em ação civil pública. Criamos até uma página em nosso site com o objetivo de dar maior publicidade aos atos realizados pelo TRT-2 durante a pandemia, com estatísticas e notícias, mantendo o público constantemente informado e atualizado.

Videoaudiência realizada no mês de maio pela 57ª VT-SP.

No setor administrativo, nossas atividades não tiveram fim. Criamos o “Projeto Vivências”, que cria espaços de diálogo e escuta compreensiva, em que os participantes podem se expressar, ouvindo uns aos outros e a si mesmos – algo de extrema importância em um momento tão atípico como o que vivemos (e aberto para servidores e magistrados, ativos e inativos, estagiário e terceirizados); a ginástica laboral se tornou online (auxiliando os servidores que trabalham agora remotamente); temos discussões de qualidade em lives organizadas em nossas redes sociais; fizemos uma campanha de vacinação contra a gripe, de modo totalmente protegido.

Vacinação contra a gripe realizada em março de 2020: sistema drive thru. Foto: acervo TRT-2.

A solidariedade ficou cada vez ficou mais nítida e próxima. Por meio do auxílio de servidores e magistrados, que compartilharam suas ações, ajudamos diversas instituições, inclusive a cooperativa de materiais recicláveis, parceiras do Tribunal em seus diversos fóruns, e que ficaram em casa, sem seus recursos, já que as próprias cooperativas estão fechadas.

Tivemos a oportunidade de participar de diversos cursos, realizados não só pela Escola Judicial do TRT-2, mas por vários outros órgãos do Poder Judiciário, que se uniram para compartilhar conhecimento e informação. Foram muitas lives sobre os mais diversos assuntos. E o melhor? Todo esse material fica disponível depois para consulta.

Compartilhamos com nossos colegas as dores e angústias dessa pandemia, do teletrabalho, da nossa (des)organização inicial. Por grupos de whatsapp, por nosso grupo no Facebook, pelo Bom Dia TRT. E também por chamadas em vídeo. Fizemos confraternizações, festas juninas e até chá de fralda pela internet (já que não seria possível de outra forma). Tivemos que aprender (sem qualquer outra opção), mas, vendo o copo meio cheio, melhoramos diariamente. Estamos nos reciclando, indo atrás de formas de trabalhar diferentes das com que nos acostumamos. E isso é coletivo.

E vai além. Nossa produtividade aumentou (nossos dados estatísticos mostram que os atos de servidores quase dobraram em relação ao mesmo período do ano passado – e estamos falando em dobrar mais de 2 milhões de atos), nossos gastos diminuíram. Estamos perdendo menos tempo em deslocamentos (o que, para uma cidade como São Paulo, em geral, são grandes distâncias). Estamos ficando mais tempo com as nossas famílias. Estamos aprendendo a utilizar a tecnologia a nosso favor.

Em 28 de agosto, realizamos a primeira sessão telepresencial do Tribunal Pleno. Em agosto deste ano, teremos nossa primeira eleição virtual, caso ainda estejamos em teletrabalho (o que está sendo atualmente analisado). Quantas barreiras suplantadas, paradigmas quebrados? Quantas mudanças!

Não estou querendo dizer que tudo são flores. Não. Não sou Pollyana. Em muitos dos setores o volume de trabalho em casa tornou-se maior do que era presencialmente. As cobranças existentes ficaram ainda maiores. As reclamações, que antes eram presenciais, em geral no balcão das varas, tornaram-se digitais, acessíveis a qualquer um. E não é só. Sabemos o quanto a convivência diária no ambiente de trabalho é uma das fontes mais ricas de experiências e lembranças. Muitas das narrativas que reconstruímos sobre a história do TRT-2 partem de situações vividas no contato direto entre colegas, de relações construídas no enfrentamento diário dos problemas do serviço público, e de amizades que se consolidam no encontro com aqueles que trabalham e recorrem a essa Justiça. O teletrabalho, como um novo modelo consolidado de organização das atividades no TRT-2, vai modificar tudo isso, talvez até o modo como contamos nossa história e encaramos nossas relações de trabalho.

Mas posso dizer que há um lado bom nisso tudo. Estamos presenciando a história. Esqueçam que mencionei sermos testemunhas dela. Não. Somos, na verdade, agentes dessa transformação que ocorre. Lidamos com ela, aprendemos com ela, a superamos e nos aperfeiçoamos. Como pessoas, como servidores públicos, como instituição. No fim, o que fazemos hoje é mostrar à sociedade o quão importante é o funcionalismo público, que, mesmo em tempos de pandemia, não se acomoda. Que não vai para casa esperar o “normal” voltar. Mas se adapta, se readéqua, se reinventa. E tira onda desse caos instalado, provando em números: aumentando a produtividade, provando que não só podemos trabalhar em casa, como podemos trabalhar muito bem. E mostrando à sociedade que mais uma vez a Justiça do Trabalho faz a sua parte e contribui para a história do país. O tempo mostrará isso. Mas a questão é: na verdade, o tempo já está mostrando isso.

A história e a memória de 2020

É necessário mencionar no entanto, que essa história de 2020 precisa de uma contextualização. Afinal, tudo o que aconteceu no TRT-2 só se deu devido às circunstâncias que o mundo nos apresentou. Não é possível contar a história do que acontece hoje sem entender qual era o seu contexto. Mesmo as nossas memórias serão construídas a partir de uma interpretação do que aconteceu. E cada um terá uma lembrança diferente – que, por sua vez, será construída de acordo com a forma individual de enxergarmos toda essa realidade que nos circunda, da maneira como interagimos com os outros.

Mas como essa “realidade” será por nós lembrada? Quais serão as partes dela que ficarão em nossa memória? Lembraremos das partes boas ou das partes ruins? Lembraremos de todas as crises?

Tanta coisa aconteceu em 2020 que nem parece que passamos por apenas um semestre. E seguimos nos surpreendendo. Do anúncio tardio da pandemia pela OMS, ao caos enfrentado pela Itália que não deu a atenção necessária ao vírus logo em seu início (e mostrou ao mundo o que não deveria ser feito – e ainda assim vários países ignoraram) até chegarmos à confirmação recente da contaminação do presidente foram meses. Foram tantas as situações pelas quais passamos nesses últimos meses em nosso país: as diversas trocas de ministros, inclusive do ministro da Saúde – por duas vezes; as crises diplomáticas; as manifestações a favor e contra o governo (e contra a democracia!); as decisões (erráticas e desencontradas) tomadas pelas várias esferas do governo; a falta de vagas em UTIs; a falta de respiradores; a falta de ambulâncias; a falta de caixões; as valas abertas.

Sem falar em rompimento de barragem, ciclone-bomba e nuvem gigante de gafanhotos. Vai faltar tempo para a retrospectiva de 2020.

Vimos profissionais de saúde sendo atacados – inclusive fisicamente. Hospitais tendo que enfrentar buzinaços em frente às suas portas. Continuamos a ver as consequências da triste estatística da pobreza: o vírus ganhando ainda mais força nas comunidades mais carentes que, sem dinheiro e sem emprego, ainda sofrem com a já constante falta de saneamento básico. A pandemia atacou nossa sociedade também de modo desigual – e desumano. Vimos crianças sem aulas. E sem ministro. O Brasil virou assunto pelo mundo. Exemplo a não ser seguido. Ao lado de Estados Unidos, Rússia, Arábia Saudita e Turquia, tivemos nossa entrada bloqueada pela União Europeia.

Ao redor do mundo, por sinal, acompanhamos os assassinatos de negros por policiais que aconteceram nos Estados Unidos, e que geraram manifestações pelo mundo todo e a mobilização do movimento “Black Lives Matter” – em plena pandemia. Acompanhamos troca de “sopapos” entre Índia e China, pela primeira vez, em 45 anos (e sem qualquer arma disparada); a saída dos EUA da OMS; o adiamento das Olimpíadas de 2020 – que serão em 2021.

Manifestação nos Estados Unidos contra o racismo e a violência policial. Imagem: CNN.

Assistimos às lives dos mais diversos tipos e para os mais diversos gostos (que viraram febre – e sinônimo de bebedeira em determinados gêneros musicais!). Estamos acompanhando agora a reabertura de nossas cidades, de nossas economias. Se cedo ou tarde, isso o futuro nos mostrará.

Vimos pessoas sem máscaras, aglomeradas, desrespeitando, inclusive, os profissionais que estão na linha de frente da pandemia. Novamente. E teve tanto mais…

Mas tivemos lindas manifestações também. De solidariedade, de cidadania, de empatia. Como o louvável exemplo dado pela comunidade de Paraisópolis na forma lidar com essa crise, mostrando que com organização e solidariedade é possível combater esse inimigo. Serão essas manifestações suficientes para lembrarmos de 2020 de modo positivo?

Projeto “Me pede que eu canto”, em que artistas cantam músicas pedidas por idosos, isolados em casas de repouso. Imagem: reprodução Instagram.

Escrevendo a nossa história

Como agentes ativos deste momento, estamos ajudando a escrever a história que será contada no futuro. Meu maior receio, porém, é sobre como nos lembraremos, daqui um tempo, sobre este momento. Como contaremos a história do ano de 2020? No âmbito do TRT-2, em nossa vida pessoal ou mesmo em nossa sociedade. De que lembraremos? De quem?

E essas perguntas tornam-se muito importantes em um contexto também especial para o Centro de Memória. Durante a pandemia, tivemos duas importantes conquistas: a instituição do Dia da Memória do Poder Judiciário pelo CNJ (comemorado em 10 de maio) e a publicação da Resolução nº 324/2020, também do CNJ, que atualiza e aperfeiçoa a Recomendação nº 37/2011, e institui diretrizes e normas de gestão de memória e de gestão documental, reafirmando a importância da preservação, da valorização e da divulgação de nossa história. Está aí mais uma razão para não deixarmos esses fatos caírem no esquecimento – porque eles são parte também da nossa história.

Os olhos do mundo estão voltados para esse assunto. Até mesmo o STF criou um painel com ações envolvendo a Covid-19 em seu site, mostrando o quão importante esse tema continuará sendo ao longo da história. Aqui no TRT-2 podemos fazer algo parecido, marcando no PJe a opção “atribuir valor histórico” toda vez que nos depararmos com ações envolvendo a Covid-19, assim poderemos manter esses processos em nosso acervo permanente, não correndo o risco de perdermos documentos tão valiosos para nossa instituição (caso você não se lembre, aqui neste vídeo é possível ver como marcar o selo no PJe e neste abordamos a importância da participação de cada um para a preservação de nossos documentos e da nossa memória).

Vídeo do TST mostra o passo a passo de como atribuir valor histórico a um processo no PJe.

Nossa história institucional toma novos rumos – e ainda falaremos muito sobre ela. Esperamos que você nos ajude a contar parte deste momento, a partir de suas próprias experiências, do seu ponto de vista, do modo como você interpretou e reagiu a essa situação. A sua memória, como sempre, é muito importante para todos nós.

Memórias Trabalhistas é uma página criada pelo Centro de Memória do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, setor responsável pela pesquisa e divulgação da história do TRT-2. Neste espaço, é possível encontrar artigos, histórias e curiosidades sobre o TRT-2, maior tribunal trabalhista do país.

Acesse também o Centro de Memória Virtual e conheça nosso acervo histórico, disponível para consulta e pesquisa.


Leia também



Publicado por Christiane Teixeira Zboril

Radialista e jornalista, é especialista em Comunicação Pública. Possui experiência com produção de rádio e TV, assessoria de imprensa, eventos e gestão de mídias sociais. Adora fazer planos, conhecer novos lugares e pessoas, além de ouvir uma boa história. Desde 2012, é servidora do TRT-2.

3 comentários em “QUATRO MESES DE TELETRABALHO

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie seu site com o WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: