80 ANOS EM MEMÓRIAS: ITALO LEONELO JÚNIOR

Me chamo Italo Leonelo Júnior, ingressei no Tribunal em 3 de agosto de 1984. Meu cargo, desde a origem, foi de agente de segurança judiciário. Na época, eu estava com 23 anos de idade, sendo este meu primeiro emprego público, tudo para mim era uma novidade. Fui lotado na Segurança Institucional da Sede na rua da Consolação 1272, onde exerci a função de agente de segurança até meados de março/abril de 1986.

Por volta de 1984, final do ano, na verdade, tive o prazer de conhecer e conviver com a senhora Isabel de Castro Mello. Ela era diretora administrativa do TRT-2. Essa senhora, de forma assim inusitada, apresentou-se a mim num momento de tamanha e crucial situação em que eu me encontrei, em vista de um assédio moral que eu estava sofrendo naquele momento.

A sra. Isabel, surpreendeu-me no corredor da Diretoria-Geral e Administrativa no prédio da Consolação. Encontrou-me aflito e me perguntou: “Menino o que está acontecendo contigo?“.

Respondi-lhe: “Eu sinto que eu estou sendo perseguido pelo meu chefe de forma inadequada, acredito que ele ache que tem razão em dizer que eu não estou cumprindo com as minhas funções, descritas no regimento do Tribunal do Trabalho”. Ele tinha me dado a seguinte ordem: “Oriente este novo servidor no uso e manuseio destes extintores de incêndio e faça com que ele saiba utilizá-lo de forma adequada, conforme você aprendeu”.

Isabel de Castro Mello, TRT-2, Memórias Narradas, Centro de Memória do TRT-2
A servidora Isabel de Castro Mello em registro de 1983. Foro: fundo Dayse Conrado Bacchi / acervo TRT-2.

Dessa forma eu agi, solicitei ao referido servidor, conjuntamente comigo, que carregasse os quatro tipos de extintores de incêndio e fôssemos ao quarto subsolo do prédio da rua da Consolação, para, então, orientá-lo sobre o uso e manuseio dos referidos equipamentos de combate ao incêndio.

Esses equipamentos estavam para ser remanufaturados, isto é, eram equipamentos que tinham seu vencimento efetivado e, por consequência, teriam seu conteúdo descartado na recarga de novos elementos químicos junto à empresa que efetuaria a renovação, dando novo tempo de validade para os extintores.

Diante dessa situação, por ordem da chefia da Secretaria de Segurança Institucional da época, a orientação era de utilizar como parte do treinamento de novos funcionários, agentes de segurança, e ensiná-los o manuseio para a efetividade da proteção do ambiente de trabalho. Deveria eu, com menos de seis meses de serviço institucional, tendo em vista que ingressei em 3 de agosto de 1984, ensinar o que havia aprendido no mês de novembro de 1984, a um colega novo, recém-empossado. Por situação peculiar, ocorrida entre agosto e novembro de 1984, em face de uma divergência entre a minha pessoa e a da chefia da Secretaria de Segurança Institucional à época, entramos em certo conflito pessoal privado, o que denotou, a partir desta questão, diversos assédios morais por parte desta chefia.

A determinação, voltando aos extintores acima referidos, resultou na minha recusa, em atender uma ordem expressamente ilegal de utilizar no treinamento extintores recentemente carregados e, portanto, novos, com validade de mais um ano, para a efetiva proteção do ambiente de trabalho, quando foi solicitado que fossem esses novos a serem utilizados no treinamento do colega recém-empossado, tendo em vista existirem equipamentos passíveis de utilização para o treinamento. Extintores que tinham seu vencimento já decorrido.

Diante do meu argumento da utilização do equipamento, que deveria ser ainda processado para o novo período e renovação de seus elementos químicos, a minha chefia alegou que os antigos não eram aptos ao efetivo treinamento. Eu justifiquei que, ao contrário, para efeito de treinamento, estavam devidamente aptos, com base não só na legislação, como também nos princípios básicos do corpo de bombeiros, que emitem as normas de seguridade referente aos equipamentos de segurança relativa a incêndios.

Tendo havido a contestação diretamente ao chefe da SSI, esse deu o “ok” e na sequência mandou que eu desse seguimento com o ato de ensinamento do novo agente de segurança. Para minha surpresa, enquanto eu ensinava esse novo colega de trabalho, subitamente, o meu chefe, acompanhado do diretor de Serviços Gerais e do subsecretário da Diretoria-Geral, surgiu para consumar e testemunhar negativamente a minha ação de treinamento, a qual fui orientado a proceder dessa forma pelo chefe da secretaria de segurança institucional em meados de outubro de 1984.

Contudo, como eu já havia passado por outros momentos de discórdia com a chefia imediata, eu passei a utilizar do “recurso Juruna”, do deputado Mário Juruna, que utilizava “um gravador” para comprovar o que o homem branco falava e contradizer, assim, aquele que queria me desmentir. Diante desta situação, eu gravei a ordem do meu chefe, anteriormente, e na sequência todo o processo de ensinamento do novo colega da segurança, em relação à utilização do equipamento de combate a incêndios. Ao ser surpreendido pelo chefe da segurança, do diretor de Serviços Gerais, e de um assessor da Diretoria-Geral, o chefe da Segurança tentou caracterizar que eu havia desobedecido uma ordem expressa dele de utilização de equipamento, que deveria ser o velho, a ser remanufaturado, alegando que eu havia utilizado no treinamento o equipamento novo. Como eu havia contestado anteriormente a utilização de equipamentos, defendendo que o treinamento deveria ser realizado com os velhos, e como em alegação “gravada”, a chefia exigiu que fossem com os novos, ficou comprovada a manipulação da chefia imediata e a tentativa de assédio moral, já nos anos de 1984.

O deputado federal Mário Juruna (1982-1986): conhecido por gravar conversas e autor do livro “O Gravador do Juruna“.

Desse fato, houve a instauração de um processo administrativo sob a direção da Diretoria de Serviços Gerais, que tentou a minha punição, com a finalidade da minha exoneração. Diante de tal procedimento, busquei acesso à Diretoria Administrativa, a qual tinha como representante a senhora Isabel de Castro Mello, conhecida, e temida, como dona Isabel de Castro. Tive a oportunidade de relatar os fatos a ela, poucos argumentos apresentei, pois como era de conhecimento de muitos servidores da época, ela, Isabel, era uma pessoa justa e institucional, mas o que não sabiam, é que dona Isabel não era só isso, pois era uma pessoa que sabia ouvir, e, antes de ouvir, sabia enxergar, sabia sentir o coração dos aflitos, sabia entender as nuances da verdade, enxergava além do horizonte.

Dona Isabel ouviu o clamor deste servidor e me permitiu relatar os fatos não só por minha voz, mas também pelo testemunho de uma escuta gravada de forma irregular. A gravação demonstrava que este servidor estava sofrendo um assédio moral. Assédio moral que, naquela época, não era reconhecido sequer como tal. Não existia nos meios jurídicos. Mas ela assim entendeu, que irregularidades estavam ocorrendo, determinando, portanto, o chamamento da chefia imediata, questionando a ocorrência dos fatos e a propositura das ações praticadas, questionando, ainda, quem o acompanhava nas deliberações tomadas diante daquela questão.

Como desfecho, o processo aberto por iniciativa da minha chefia imediata, teve seu arquivamento determinado pela dona Isabel.

Em 1986, fui lotado na secretaria da 3ª Junta de Conciliação e Julgamento de São Paulo no Fórum da av. Ipiranga. Nesse mesmo ano, em decorrência dos eventos relatados, busquei a Associação dos Servidores da Justiça do Trabalho, que estava localizada no Fórum da av. Rio Branco. Contudo, a direção estava ligada à Administração do TRT-2, e um dos diretores da mesma era um dos meus perseguidores. Não encontrando respaldo na referida associação, identifiquei entre os colegas, outros que também se encontravam em situação similar, e neste ano (1986) participei de campanha de eleição para a Associação, na qual obteve êxito a chapa concorrente.

Em Janeiro de 1988 retornei para a Secretaria de Segurança, com a mesma lotação, porém a partir deste período passei a exercer a função nos fóruns da av. Cásper Líbero, av. Rio Branco e av. Ipiranga.

Foi nesse período em que eu novamente tentei assumir, no voto, a direção da Associação, tendo êxito, e para nossa alegria, a Constituição Federal de 1988 permitiu a criação de Sindicato dos Servidores Públicos. Nesse mesmo ano, em assembleias foi autorizado a transformação da Associação em Sindicato. Eu fui eleito na diretoria provisória e nas subsequentes, até o final da gestão de 1999, quando decidi me afastar para permitir a renovação, sangue novo, na direção do antigo Sintrajus e novo SINTRAJUD.

O servidor Italo Leonelo Júnior (em destaque) durante cerimônia de posse da diretoria da Fenajufe. Na foto, é possível identificar os colegas Marcelo (segundo, da esquerda para a direita, na fila de cima); à frente dele, Wanderley (de jaqueta e camiseta com foto); Ivo (terceiro da esquerda para a direita, na fila de cima, ao lado direito de Marcelo); Ribeiro (ao centro da foto, na última fila, olhando para o lado esquerdo; falecido em 2014) e Neemias (segundo da direita para a esquerda). Foto: fundo Italo Leonelo Júnior / acervo TRT-2.

Em 1996, ainda dirigente sindical, por uma necessidade de apoio na 1ª VT-SP, fui designado Oficial de Justiça Avaliador “ad doc”. Permaneci no exercício desta função até maio de 2001. Após, retornei ao meu cargo de origem, porém com a mesma lotação na Central de Mandados, antiga SEI – Secretária de Execução Integrada, na av. Rio Branco. Permanecemos ali até a mudança para o Fórum da Barra Funda, em 2004.

Em 2006, devido a uma intervenção da Corregedoria na Central de Mandados de Guarulhos, foi-me oferecido, em razão de indicação dos colegas oficiais de justiça, que participaram das averiguações na referida Central, o cargo de Coordenador/Diretor desse setor. Assumi o cargo em meados de maio de 2006.

A partir da minha gestão na Central de Mandados de Guarulhos, fui indicado a participar de Grupo de Estudos, coordenado pela Presidência e Corregedoria do TRT-2, na “Frentes de Trabalho do Programa de Modernização! por meio da Portaria GP/CR Nº 03/2008, de 12 de março de 2008, que visou trazer melhorias nos procedimentos administrativos e judiciais.

Entre 2010 e 2011, através de convênio do TRT com a FMU, fiz a minha especialização em Direito Processual do Trabalho.

Exerci a função de Coordenador/Diretor da Central de Mandados de Guarulhos até Outubro de 2014, quando optei por retornar ao exercício de minha função originária de Agente de Segurança. Objetivava, com esse retorno, obter a vantagem da Gratificação de Atividade de Segurança – GAS, na minha aposentadoria. Contudo, a referida verba não foi incorporada.

De outubro de 2014 a fevereiro de 2019 exerci o meu cargo no Fórum da Zona Leste, quando me aposentei em 26 de fevereiro de 2019. Tenho vários amigos no TRT, dentre Agentes de Seguranças e Oficiais de Justiça. Passei por muitas alegrias e, com certeza, algumas tristezas.

Saudades as possuo de vários colegas, amigos e irmãos de jornada. Muitos partiram, outros vivos, graças a Deus (Oxalá), com quem mantenho contato e amizades.

Italo (ao centro) com seus colegas agentes de segurança do TRT-2: Mauro e Peterson (esquerda para a direita). Foto: fundo Italo Leonelo Júnior / acervo TRT-2.

Lembro-me de um amigo Oficial, seu nome era Rubens, estava passando por sérios problemas emocionais e, na época, trabalhava com a Dulcinea Lima de Jesus Figueiredo na Distribuição da Barra Funda. Ele se fechou para todos, morreu sozinho em casa, não fosse a Dulcinea, que dava muita atenção a todos os seus subordinados, ele não teria sido encontrado em sua casa, sozinho, falecido há pelo menos quatro dias. Esse fato ocorreu entre 2005 e 2006. Ainda, em meados de 2002, outro colega Oficial também veio a óbito em decorrência de câncer, trabalhava com ele na Central de Mandados da av. Rio Branco.

A minha maior tristeza foi em relação ao meu irmão, Fernando César Leonelo, agente de segurança, que ingressou nos quadros do TRT em 1995 e veio a óbito em 2008. Ainda sobre óbitos tristes que resultam de minha jornada, tem a do amigo Ribeiro, agente de segurança, que faleceu de forma trágica no prédio da Consolação em 2014 e de outras duas colegas do Ruy Barbosa, em outubro de 2014.

Fernando Cesar Leonelo, servidores do TRT-2
O irmão de Italo, Fernando Cesar Leonelo, também servidor do TRT-2 entre 1995 e 2008. Foto: fundo Italo Leonelo Junior / acervo TRT-2.

Aposentado, ainda não me acostumei com a ideia. Tentei até a reversão para voltar à ativa. Aliás, um dos fatores que me levou a pedir aposentadoria foi a malfadada Reforma Previdenciária e Administrativa. Mas infelizmente, não pude retornar à ativa, pois tinha que devolver legalmente valor indenizado de Licença Prêmio, recebido em pecúnia, e por falta de recursos financeiros, não foi possível.


Italo Leonelo Júnior é servidor aposentado do TRT-2. Atuou no Regional entre 1984 e 2019. Formado em Direito e pós-graduado em Direito Processual do Trabalho, atuou como agente de segurança e como oficial de justiça “ad hoc”. Teve um irmão no Tribunal, Fernando César Leonelo, falecido em 2008.


Este texto foi publicado no contexto da campanha “80 anos em Memórias”, que integrou as atividades em comemoração aos 80 anos de instalação da Justiça do Trabalho da 2ª Região, realizadas pelo Centro de Memória do TRT-2 no ano de 2021. Mais contribuições de servidores, servidoras, magistrados e magistradas do TRT-2 (da ativa e aposentados) podem ser lidas aqui.

Memórias Trabalhistas é uma página criada pelo Centro de Memória do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, setor responsável pela pesquisa e divulgação da história do TRT-2. Neste espaço, é possível encontrar artigos, histórias e curiosidades sobre o TRT-2, maior tribunal trabalhista do país.

Acesse também o Centro de Memória Virtual e conheça nosso acervo histórico, disponível para consulta e pesquisa.


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Publicado por memoriatrt2

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