80 ANOS EM MEMÓRIAS: CELINA RODRIGUES PESSOA

Ah, inúmeras são as lembranças a contar do dia da posse.

Oriunda da Justiça Comum de uma das Varas de Família, lá fui eu tomar posse na Justiça do Trabalho. Assinada a papelada no Edifício Sede, fui encaminhada à 7ª Vara, na av. Ipiranga. Recebida pelo diretor, fui logo perguntada se aceitaria trabalhar em audiência, ao que respondi que sim, sem qualquer problema

Mal sabia o que aguardava… Enquanto na Justiça Comum as audiências aconteciam duas vezes por semana, com uma pauta de três a cinco processos; na Justiça do Trabalho, as sessões eram de segunda a sexta, com audiências a cada cinco minutos, em torno de 15 por dia.

endereços do TRT-2, av. Ipiranga
Prédio da av. Ipiranga, 1225, em foto tirada em 2004. Fonte: acervo TRT-2.

Também mal sabia eu que iria trabalhar com uma das melhores Juízas do Trabalho, mas também, uma das mais exigentes. Com um conhecimento jurídico ímpar, redação impecável, lá fui eu secretariar a dra. Maria Elisabeth Fasanelli (in memorian), a quem agradeço por todos os puxões de orelha, com o objetivo de aprimorar o trabalho. 

Formada em Letras e estudante de Filosofia, devo a ela a desistência do curso de Filosofia e ingresso no curso de Direito. Nunca o Direito me parecera tão bonito, tão dinâmico. Ficava encantada com a condução das audiências pela dra. Elisabeth. Desde a advertência à testemunha até a colheita protocolar dos votos dos juízes classistas, antes da prolação da sentença, tudo era solene e impecável.

Uma verdadeira aula de Direito Processual e Material.

O trabalho era incansável e a perfeição, condição sine qua non.

Scheilla Brevidelli, Celina Rodrigues Pessoa,
Celina Rodrigues Pessoa (segunda da direita para a esquerda), ao lado de Scheilla Brevidelli (à direita) e demais colegas da 7ª Vara do Trabalho. Foto: fundo Celina Rodrigues Pessoa e Scheilla Regina Brevidelli / acervo TRT-2.

Mas eis que a Dra. Elisabeth começa a trabalhar como juíza  substituta no Tribunal e um dos juízes que a substituiu por muito tempo veio a ser o dr. Maurício Miguel Aboul Assali. 

Com seu jeito todo informal e simpatia singular, não foi difícil que todos os integrantes da Vara se “apaixonassem” por ele. 

E eu, acostumada com a formalidade da titular da Vara, fui me acostumando com um juiz totalmente diferente, mas não menos competente e igualmente preocupado com as soluções dos litígios. As audiências passaram a ser muito dinâmicas,  com acordos acontecendo por todos os cantos da sala, sempre com sua supervisão impecável. Chegava a ficar com quatro ou cinco telas de audiências abertas, todas sendo construídas ao mesmo tempo. No auge dos meus trinta anos, adorava aquela correria e dinamismo.

Celina Rodrigues Pessoa (ao centro de casaco azul), ao lado de Scheilla Brevidelli (à direita) e demais colegas da 7ª Vara do Trabalho. Foto: fundo Celina Rodrigues Pessoa / acervo TRT-2.

E não posso esquecer de citar o quanto era habilidoso o dr. Maurício tanto na realização dos acordos, quanto na coleta das provas das eventuais instruções. Conseguia extrair das partes e testemunhas a verdade, desarmando-as com brincadeiras, com perguntas que não eram objeto do pedido nos autos, desconstruindo-as caso tivessem sido previamente instruídas.  Um verdadeiro gênio!

E assim, convivendo com juízes de habilidades e personalidades distintas, percorri em torno de 10 anos na 7ª Vara. O contato com os demais colegas de trabalho era restrito porque como todos sabem, a audiência, consome  todo o tempo. Ainda mais nas épocas  mais remotas em que computadores não faziam parte da ferramenta de trabalho. Todavia, não posso deixar de citar o convívio e a amizade que ficou, ainda hoje, com as colegas Vanda Campos e Scheilla Brevidelli.

Com a promoção da dra. Elisabeth, fui para a segunda instância, permanecendo com ela até o seu precoce falecimento. Outra vez, o meu mais profundo agradecimento ao reconhecimento pelo meu trabalho e oportunidade de aprendizagem. 

Depois, tive passagem rápida pela 10ª Turma e em um outro gabinete, cujo percurso prefiro não comentar. 

Também uma rápida passagem pela Distribuição e retorno à  primeira instância, na 1ª Vara, cujo titular, dr. Maurício, me recebeu com muito carinho. E só posso dizer que estes três últimos anos foram os melhores de minha passagem pelo TRT. Conheci uma turma divertida e muito competente, que trabalhava incansavelmente para fazer as minutas de despacho das petições do dia anterior, da qual pude fazer parte e dar a minha colaboração. Ficaram amigos deste relacionamento com os quais ainda mantenho contato virtual, tal como a Helena, o Domingues, o Luciano, só para citar alguns.

Hoje, aposentada, à exceção feita a um curto período em um gabinete da segunda instância, posso dizer que sinto saudades e tenho muito o que agradecer ao TRT. Parabéns pelos 80 anos e que consigamos manter de pé esta Justiça Especializada por pelo menos mais 80 anos, mormente nestes tempos sombrios em que a precarização do trabalho e a própria extinção desta Justiça vem sendo tão discutida. Esse, o meu singelo, porém longo relato. Afinal, resumir 25 anos não é fácil…


Celina Rodrigues Pessoa é servidora aposentada do TRT-2. Formada em Letras e Direito, com pós-graduação em Direito Social pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, ingressou no Regional em 1993, aposentando-se em 2017. Atuou na 1ª e na 7ª Varas do Trabalho da Capital, com passagem pela Segunda Instância do TRT-2.


Este texto foi publicado no contexto da campanha “80 anos em Memórias”, que integrou as atividades em comemoração aos 80 anos de instalação da Justiça do Trabalho da 2ª Região, realizadas pelo Centro de Memória do TRT-2 no ano de 2021. Mais contribuições de servidores, servidoras, magistrados e magistradas do TRT-2 (da ativa e aposentados) podem ser lidas aqui.

Memórias Trabalhistas é uma página criada pelo Centro de Memória do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, setor responsável pela pesquisa e divulgação da história do TRT-2. Neste espaço, é possível encontrar artigos, histórias e curiosidades sobre o TRT-2, maior tribunal trabalhista do país.

Acesse também o Centro de Memória Virtual e conheça nosso acervo histórico, disponível para consulta e pesquisa.


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Publicado por memoriatrt2

Aqui neste perfil, você encontra os textos produzidos por colegas que contribuem para a produção de conteúdo dentro do Centro de Memória do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, setor que surgiu no segundo semestre de 2017, com o objetivo de pesquisar e divulgar a memória institucional do TRT-2.

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