MAURÍCIO LENINE PIRES: UM SERVIDOR POLIVALENTE

Era 1º de agosto de 1941 e as primeiras páginas dos jornais da época traziam notícias sobre a 2ª Guerra Mundial. Tropas alemãs realizavam ofensivas na frente oriental e massacravam 30 mil soldados soviéticos próximo ao lago Peipus. Enquanto isso, em Moscou, seus habitantes sofriam com mais um bombardeio da Luftwaffe (Força Aérea Alemã).  O Brasil permaneceu neutro no conflito até o ano seguinte, quando entrou na guerra ao lado dos aliados. As notícias nacionais do dia também falavam de uma visita do presidente Getúlio Vargas a Assunção, no Paraguai (a mesma que resultaria, dias depois, na passagem de Vargas à cidade de Cuiabá).

Nesse mesmo dia, Maurício Lenine Pires era admitido como estafeta diarista do Conselho Regional do Trabalho da 2ª Região, junto com mais 16 jovens. O órgão, recém-criado pelo governo de Getúlio, ocupava alguns andares de um modesto prédio na rua Conselheiro Crispiniano, nº 29, e desde sua instalação em maio daquele ano, ainda não tinha iniciado efetivamente seu funcionamento nas unidades de primeira instância.

Edição do jornal “O Globo” de 1ª de agosto de 2021. Fonte: acervo O Globo.

Nascido em 1927, Maurício Lenine Pires completou 94 anos em 2021, um pouco mais de 14 anos que a Justiça do Trabalho, e passou toda sua vida profissional nos corredores do TRT-2.

Chegamos até seu nome pelas menções de outros servidores e magistrados aposentados, com os quais conversamos nos últimos três anos de trabalho do Centro de Memória. Ele sempre era lembrado como o servidor mais antigo do TRT-2, alguém que, na altura dos seus noventa anos, tinha uma excelente memória e boas histórias sobre os primórdios da Justiça do Trabalho.

Por diversas vezes entramos em contato com Maurício Lenine Pires para tentarmos uma entrevista e, talvez, gravar um episódio do projeto “Memórias Narradas”. Ele, apesar da educação, sempre se mostrava reticente, adiava a nossa entrevista, mas nos contou determinadas passagens de sua carreira pelo TRT-2. Relatos, ainda que breves, traziam novas descobertas sobre as rotinas de uma Justiça do Trabalho recém-criada, das quais ele tinha sido testemunha. O jovem Maurício ingressara no serviço público em 1941, assim como a Justiça do Trabalho ingressara na sociedade brasileira.

Primeiros dias da Justiça do Trabalho

O registro da admissão de Maurício Lenine Pires é de 1º de agosto de 1941, data que se estima ser o início dos expedientes na Justiça do Trabalho na primeira instância, ainda que, em publicação do Diário Oficial do Estado de São Paulo do dia 25 de julho de 1941, conste um edital de notificação de sessão ordinária do CRT-2, para julgamento de processos na 2ª instância.

Em 1941 os quadros do CRT-2 eram compostos por poucos funcionários, sua maioria advinda do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, portanto, a admissão do grupo de garotos, do qual Maurício fazia parte, ajudava a sanar as demandas que logo começariam a aumentar.

Nomeação dos 16 estafetas do Conselho Regional do Trabalho da 2ª Região, em publicação do “Diário Oficial” do dia 7 de outubro de 1941: apesar da data, os jovens já tinham assumido suas funções meses antes.

No livro de ponto da 1ª Junta de Conciliação e Julgamento a primeira folha está datado do dia 1º de agosto, registro mais antigo de um expediente na primeira instância do CRT-2 que temos no arquivo histórico do TRT-2. Assina o termo de abertura o Secretário da Junta, Euzébio Martins da Rocha Filho, que ganharia notoriedade, mais tarde, como deputado estadual, fundador do PTB e importante membro do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional (CEDPEN), responsável pelos trabalhos que embasaram a criação da Petrobrás.

junta de conciliação e julgamento, CRT-2, livro de ponto, Miriam Salcedo Machado
Livro de ponto da 1ª Junta de Conciliação e Julgamento da Capital, do CRT-2. A junta era composta por seis servidores. Dentre eles, Miriam Salcedo Machado, que abre o livro de ponto e também o livro de posse da 1ª JCJ. O último a assinar é Euzébio da Rocha Filho, diretor da Secretaria, responsável pelo termo de abertura do livro. Fonte: acervo TRT-2.

Maurício, por sua vez, foi trabalhar na 6ª Junta de Conciliação e Julgamento, mas conheceu Euzébio, e foi por meio das histórias que nos contou que acabamos por descobrir que esse Euzébio teria saído da Justiça do Trabalho recém-criada para assumir protagonismo na política nacional. Euzébio também fez parte da Constituinte, como deputado federal, e ajudou a colocar a Justiça do Trabalho como parte do Poder Judiciário no texto da Constituição de 1946. Aliás, foi o próprio Maurício que nos trouxe tal informação.

Descobrimos Euzébio, mas, principalmente, detalhes da trajetória não menos expressiva de Maurício Lenine Pires, um dos servidores mais antigos do TRT-2, com quem o Centro de Memória teve a oportunidade de conversar algumas vezes.

Foto 3×4 da pasta funcional de Maurício Lenine Pires. Foto: acervo TRT-2.

Em uma dessas ocasiões, ao mencionar alguns de seus antigos colegas, Maurício desatou a falar sobre como exercia dupla jornada. O jovem funcionário público trabalhava durante o dia na Justiça do Trabalho e, acabado o expediente, corria até a sede dos Diários Associados de São Paulo para atuar na redação e edição das notícias que seriam veiculadas no “Grande Jornal Falado Tupi”, que na década de 1940 era um dos dois únicos programas noticiosos transmitidos pelo rádio em rede nacional. Ou seja, Maurício participara tanto da fundação da Justiça do Trabalho, como também de um dos marcos do radiojornalismo brasileiro.

Com sua excelente memória, Maurício se transformou em nosso consultor para os assuntos mais diversos. Por diversas vezes ligamos para ele para confirmar uma história, para tirar uma dúvida sobre algum colega servidor ou magistrado, para perguntar sobre uma curiosidade. Sempre nos atendeu, mas também sempre adiou a entrevista completa. Fomos reconstruindo um pouco de sua trajetória com esses pedaços que ele nos dava a cada conversa. Em 2020 recebemos sua visita durante a Campanha de Recadastramento de Servidores Inativos do TRT-2, na qual não nos deu a longa entrevista tão aguardada, mas bateu um papo com a equipe do CM. Nessa ocasião ele gravou um curto depoimento para a Secretaria de Comunicação do TRT-2, dias antes do início da pandemia.

Maurício gosta de conversar e contar histórias e todo trecho que nos relatou se tornou registro histórico, que agora, quando a Justiça do Trabalho completa 80 anos, são patrimônio da instituição e nos servem tanto para descrever um pouco da trajetória multifacetada do colega aposentado, quanto da Justiça do Trabalho em São Paulo.

Estafetas na Justiça do Trabalho

Estafeta é um termo pouco conhecido nos dias de hoje, utilizado normalmente para designar pessoas encarregadas pela entrega de correspondências. Tem suas origens na Grécia antiga: talvez o mais famoso estafeta teria sido Fidípedes, aquele soldado e hemeródromo ateniense descrito por Heródoto, que teria percorrido o caminho de Maratona a Atenas para entregar uma mensagem. Nos dias de hoje, o termo caiu em desuso, sendo substituído pelo boy (office-boy) ou contínuo, aquela profissão normalmente exercida por jovens que realizam tarefas cotidianas em escritórios e estabelecimentos comerciais. Mas ainda é muito comum em Portugal e ganhou notoriedade por designar os onipresentes entregadores (estafetas) por aplicativo.

Conforme consta no processo CNT nº 1661, de 1943 (disponível aqui), o Conselho Regional do Trabalho da 2ª Região possuía em 1941, 17 estafetas, dos quais se requeria a admissão como extranumerário-diaristas. Nesse processo consta uma carta de recomendação, escrita de próprio punho e assinada pelo magistrado do CRT-2 Carlos de Figueiredo Sá, sobre Maurício:

“Declaro que conheço o Sr. Maurício L. Pires, há vários anos, podendo, a bem da verdade, atestar seu bom procedimento e sua capacidade para exercer o cargo de diarista na Justiça do Trabalho.”

Carlos de Figueiredo Sá. 31/07/1941. Processo CNT nº 1661 de 1943, fls. 03.
Folha 3 do processo CNT nº 1661 de 1943, com a declaração de Carlos de Figueiredo Sá. Fonte: acervo TST.

Como Maurício relatou, o juiz Carlos de Figueiredo Sá, conhecido pelas ideias progressistas e pela sua proximidade com os movimentos de esquerda da época, simpatizou com o jovem estafeta, inicialmente, por ele ter no sobrenome a menção ao líder soviético Lênin (Lenine). Mais tarde, essa relação se transformaria em uma grande amizade, que levou Carlos a ser padrinho de casamento do colega e amigo.

O processo supracitado (que tramitava no Conselho Nacional do Trabalho), no qual consta a carta de recomendação, visava a admissão do grupo de jovens, formalizando a contratação e a relação de trabalho entre eles e a Justiça, em um momento no qual não eram realizados concursos. Por isso, a recomendação de um dos magistrados do CRT-2 era fundamental para que o pedido fosse deferido. Como o próprio Maurício relembra:

“Eu entrei com 14 anos, naquele tempo podia menores de idade. Um amigo do Carlos conseguiu nos indicar. Nós éramos estafetas, depois fizemos concurso para nomeação de cargo efetivo de servente. Aí, depois, saiu para escriturário, passei e fiz carreira.”

Maurício Lenine Pires – servidor aposentado do TRT-2

No processo de efetivação constam os nomes de alguns dos colegas da época de Maurício, todos eles admitidos como estafetas:

  • Antonio Bonani
  • Benedito Sampaio de Souza
  • Alcindo Silveira
  • Edgard Teixeira Nascimento
  • Mario Lopes Silvério
  • Benedito Luiz de Camargo
  • Hélio Noronha de Melo
  • Newton Barata Fernandes
  • Paulo Eduardo de Oliveira Costa
  • Carlos Rodrigues
  • Guttemberg Bernardino de Andrade
  • Alpineu Miguel Corrêa
  • Renato Benedito Valentim Mungioli
  • José Alves de Oliveira
  • Luiz Gonzaga Pinheiro Ferrara
  • Rafael Nunes Ferreira

Cópia do termo de exercício de Maurício Lenine Pires. Fonte: acervo TST.

O juiz Carlos de Figueiredo Sá já ocupava cargo de presidente da 7º Junta de Conciliação e Julgamento, antes mesmo da criação da Justiça do Trabalho. A Inspetoria Regional do Trabalho já havia instalado 10 Juntas de Conciliação e Julgamento na Capital e parte de seus presidentes foi aproveitada. Com a criação e instalação do CRT-2, Carlos Sá passou a ocupar a presidência da 6ª JCJ e tornou-se o primeiro juiz com o qual Maurício trabalhou.

Devido às suas orientações políticas, Carlos de Figueiredo Sá foi perseguido durante a Ditadura Militar e em 1969 foi aposentado compulsoriamente pelo AI-5. Fonte: acervo Benedicta Savi.

Uma família

Segundo Maurício, nessas primeiras décadas da história do Tribunal, todos se conheciam, desde juízes, a funcionários com cargos de chefia e estafetas. A Justiça do Trabalho era formada por poucos juízes e funcionários. A distância entre aqueles que atuavam nas diferentes instâncias e setores era muito pequena (conheça mais sobre o primeiro ano de funcionamento do CRT-2 no texto “O Primeiro Ano do CRT-2”). Sem contar que todos ficavam em um único prédio (algo que ocorreu até o ano de 1964). Maurício mesmo chegou a estabelecer uma relação muito próxima com Mário Pimenta de Moura, Secretário do Conselho:

“Era uma família, todo mundo se conhecia. Eram seis juntas no começo, e eu fui da sexta. Meu primeiro juiz foi o Carlos de Figueiredo Sá. O diretor geral na época era o Mário pimenta de Moura, ambos foram meus padrinhos de casamento, um no civil, que foi o juiz, que era esquerdista, e, no religioso, foi o Pimenta. Todo mundo chamava ele (o Pimenta) de doutor, mas ele nunca foi doutor.”

Maurício Lenine Pires – servidor aposentado do TRT-2.
TRT-2, Hélio Tupinambá Fonseca, Carlos de Figueiredo Sá, Mário Pimenta de Moura, Maurício Lenine Pires, Maison Suisse, rua Caio Prado, década de 50
Na foto, servidores e magistrados do Tribunal em confraternização na concorrida Maison Suisse (rua caio Prado, 183 – endereço que hoje abriga um edifício residencial homônimo), na década de 50. Da direita para a esquerda: os magistrados Hélio Tupinambá Fonseca e Carlos de Figueiredo Sá. Na sequência, de óculos, o diretor-geral Mário Pimenta de Moura. À esquerda, de terno preto e bigode, o servidor Maurício Lenine Pires. Foto: acervo Isabel de Castro Mello.

O cotidiano no CRT-2

Apesar de contar com apenas seis Juntas de Conciliação e Julgamento na Capital, o Conselho Regional do Trabalho da 2ª Região, em seus primeiros seis meses de efetivo funcionamento, recebia uma demanda muito alta de processos. Normalmente, ao analisarmos toda a estrutura atual da Justiça do Trabalho da 2ª Região, assim como as rotinas de servidores e magistrados, tendemos a considerar, que no passado, em um Tribunal tão pequeno, o trabalho fosse mais tranquilo e as demandas menores.

Porém, em uma breve análise no Relatório de Atividades da Justiça do Trabalho de 1941, abrangendo apenas o período de julho a dezembro daquele ano, podemos perceber o quanto a realidade dos expedientes não era tão tranquila. Naquele ano, o CRT-2 recebeu 4.422 processos da 14ª Delegacia Regional, além de 823 reclamações novas. A distribuição, como consta no relatório, iniciou-se em 22 de julho, e uma semana depois, os expedientes nas Juntas começaram.

“Recebeu esse Conselho, de cada uma das seis juntas de conciliação e julgamento que funcionam no município de São Paulo, relatório completo das respectivas atividades. […] Em todos esses relatórios há referência à falta de material e de pessoal, bem como elogios aos vogais e funcionários, pelos resultados conseguidos em 1941.”

Trecho do Relatório Anual de Atividades do CRT-2 de 1941, fls 5.

A falta de material apontada nos relatórios da época, principalmente a de “impressos”, refere-se a “papel”, a matéria-prima dos expedientes, que frequentemente era escassa. Sobre essa questão, Maurício nos conta um pouco da realidade dos primeiros anos de funcionamento da Justiça do Trabalho no prédio da rua Conselheiro Crispiniano:

“Eram só os quatro primeiros andares e, também, a 14ª Delegacia Regional do Trabalho, porque nós pertencíamos a eles, ao Ministério do Trabalho. Até chegou uma época em que nós não tínhamos papel para fazer as audiências e nós pegávamos deles, porque iam jogar fora. Você usava o verso. Foi muito complicado, porque cada junta era independente, tinha que comprar suas próprias coisas.”

Maurício Lenine Pires – servidor aposentado do TRT-2.

Além da falta de material e do espaço apertado do prédio, faltavam braços para trabalhar. Naquela época os expedientes na Justiça do Trabalho ocorriam também aos sábados, dias de menor movimento e que, segundo Maurício, eram utilizados para a limpeza das juntas pelos funcionários. Ele mesmo varreu as dependência do CRT-2 todo sábado de manhã, junto com seus colegas, durante um bom tempo.

Nos primeiros anos de funcionamento do CRT-2, esse dilema da falta de material, estrutura precária e carência de funcionários foi questão frequente, tratada nos Relatórios como uma preocupação dos presidentes. Por isso, uma inovação como as máquinas de escrever, ao chegarem até às Juntas, foram uma revolução para as rotinas das secretarias, ainda mais para Maurício que, na época, após ser nomeado para o quadro permanente do TRT-2, passou a atuar como datilógrafo de audiência. Maurício lembra da importância desses novos equipamentos e como a Justiça do Trabalho de São Paulo teria sido pioneira em adotá-los em suas rotinas:

“E aí tivemos aquelas máquinas de escrever maravilhosas de 1941, que o americano usava no campo de batalha, e aqui elas valiam ouro, pois duravam bastante. Nós modernizamos a Justiça naquela época, porque na Justiça Comum era tudo manuscrito, e a máquina de escrever era uma novidade.”

Maurício Lenine Pires – servidor aposentado do TRT-2.

As máquinas, como Maurício conta, eram uma ferramenta de trabalho ainda escassa, um item de luxo, pois precisavam ser importadas de outros países, já que a primeira planta da fabricante americana Remington foi instalada no Brasil apenas em 1948.

As máquinas datilográficas ganharam papel fundamental no campo de batalha, para a produção rápida e padronizada da burocracia de guerra e da comunicação. Por isso, gradualmente, seus modelos foram se tornando mais resistentes e compactos, no período entre as duas guerras mundiais. Elas precisavam resistir às intempéries dos campos de batalha e as fábricas dispunham de pouco material, já que a indústria siderúrgica estava voltada aos esforços de guerra.

O Modelo Corona 3 ficou muito popular a partir da década de 1920 e foi muito utilizada nos campos de batalha e nas repartições públicas. Fonte: Vaticam.com.

Maurício transformou-se em um exímio datilógrafo, habilidade que ele já tinha desenvolvido na infância e que, depois, lhe daria o primeiro lugar nas provas de datilografia dos concursos internos do TRT-2.

“O cargo de datilógrafo era por nomeação, mas eu tirei o primeiro lugar em datilografia no concurso para escriturário. Eu era um ótimo datilógrafo e aprendi ainda garoto. Aí assumi esse cargo, mas não tinha verba, não ganhava nada.”

Maurício Lenine Pires – servidor aposentado do TRT-2.

Atuação e amigos pioneiros

Além da rotina de trabalho dos primeiros anos no Regional, Maurício também lembra de seus colegas, que, assim como ele, entraram jovens na Justiça do Trabalho e nela fizeram carreira, dedicando décadas de suas vidas. Muitos deles entraram funcionários e encerraram suas carreiras como magistrados. É o caso de Nelson Ferreira de Souza, Júlio Assumpção Malhadas, Gabriel Moura Magalhães Gomes e Francisco Garcia Monreal Júnior.

“Um colega meu foi o Francisco Garcia Monreal Júnior, que mais tarde passou no concurso, foi nomeado juiz substituto, e depois foi presidente na 15ª Região em Campinas, quando o TRT-2 se ramificou.”

Maurício Lenine Pires – servidor aposentado do TRT-2.

Francisco Garcia Monreal Júnior ingressou como funcionário do CRT-2 em 16 de julho de 1941, aos 23 anos e chegou a ser chefe da secretaria da 6ª Junta de Conciliação e Julgamento, onde foi colega de Maurício. Em 1956, após ser aprovado no Concurso da Magistratura, foi nomeado para a JCJ de Ribeirão Preto, seguindo sua carreira como magistrado pelo TRT-2. Em 1986, quando foi criado o TRT-15, ele solicitou sua remoção e assumiu como primeiro presidente do novo Regional, aposentando-se em 1988.

Outro colega da mesma geração, que fez sua história no TRT-2, foi Mário Lopes Silvério, também admitido como estafeta em 1941, na mesma turma de Maurício. Em 1948, foi promovido a datilógrafo e, em 1956, tornou-se distribuidor do TRT-2, cargo no qual permaneceu até sua aposentadoria, em 1977.

Maurício, por sua vez, também trilhou sua trajetória de ascensão profissional da Justiça do Trabalho. Em 1942 foi reconduzido para o cargo de boy, um termo mais familiar aos nossos ouvidos. Mais tarde, foi efetivado como servente, passando a integrar, em 12 de janeiro de 1948, o quadro permanente do TRT-2.

A mudança de status foi possível graças à Lei nº 409/1948, que criou o quadro de pessoal da Justiça do Trabalho, o que permitiu que “datilógrafos e extranumerários mensalistas, lotados ou em exercício nos diversos órgãos da Justiça do Trabalho” pudessem ser aproveitados na classe inicial da carreira de escriturário. Assim, Maurício, de boy, foi nomeado como servente classe B e passou a compor o quadro permanente de pessoal da Justiça do Trabalho.

Pode-se dizer, em um paralelo com os dias atuais, que o estagiário, após oito anos de trabalhos prestados, tinha sido efetivado na empresa. Contudo, a própria lei previa a admissão de novos servidores por meio de concurso, e como Maurício tinha sido nomeado para servente, com salário menor do que os cargos iniciais de carreira, em 1949 inscreveu-se e participou do primeiro concurso de servidores da JT, sendo aprovado e nomeado para o cargo de escriturário.

Esse era um caminho muito comum nos primórdios da Justiça do Trabalho. Aqueles que não eram funcionários do Ministério do Trabalho, que decidiram permanecer na JT, eram pessoas que haviam ingressado nos primeiro anos após a instalação, por meio de indicações e que depois se efetivaram por meio da Lei nº 409/1948. Por isso, o primeiro concurso realizado em 1949 foi somente para o quadro existente de interinos e mensalistas, no sentido de regularizar definitivamente essas situações no órgão.

Maurício Lenine Pires, TRT-2
O servidor Maurício Lenine Pires (à direita, em terno preto). À esquerda, a servidora Isabel de Castro Mello. Foto: fundo Isabel de Castro Mello / acervo TRT-2.

Maurício atuou como datilógrafo de audiência e, em 1953, prestou novo concurso interno, sendo promovido a auxiliar judiciário. Três anos depois, seu amigo Francisco Garcia Monreal Júnior foi nomeado juiz substituto e passou o bastão da chefia da Secretaria da 6ª JCJ para Maurício, que assumiu o cargo em 1º de fevereiro de 1956.

Edição do “Diário Oficial” de 30 de novembro de 1955, na qual consta publicação de edital da 6ª Junta de Conciliação, com os nomes do trio de colegas: Maurício Lenine Pires (auxiliar judiciário), Francisco Garcia Monreal Júnior (chefe de secretaria) e Carlos de Figueiredo Sá (juiz-presidente da junta). Fonte: acervo “Diário Oficial”.

Precursor na luta pelos direitos dos servidores

Em seus anos atuando como servidor, Maurício Lenine Pires participou de várias iniciativas para a organização e representação dos servidores do TRT-2. Na época, a categoria ainda não possuía associações ou órgãos voltados à defesa e ampliação de seus direitos, por isso, precursores como Maurício e seus colegas foram os primeiros a se organizar nesse sentido na 2ª Região. Em 1947 ele fez parte do grupo que fundou o Grêmio Desportivo da Justiça do Trabalho, do qual foi o 1º tesoureiro.

Já no final da década de 1950, como chefe de secretaria, encabeçou, junto com Luiz Antônio Toledo Leite, o Totó, a fundação da Associação dos Funcionários da Justiça do Trabalho, que foi a primeira instituição de representação dos direitos dos servidores, mais tarde absorvida pelo Sintrajud.

“Um dos primeiros pleitos feitos pela associação foi exatamente o pagamento dos servidores via banco. Contou-nos recentemente Maurício Lenine Pires, complementando a história de Luiz Antonio, que os servidores efetivos do Tribunal recebiam na sala do diretor. Já quem era extranumerário (ele próprio, Maurício, um deles) tinha que se dirigir à Delegacia Fiscal do Tesouro Nacional em São Paulo, órgão que antecedeu a atual Receita Federal, responsável, até então, pelo pagamento dos funcionários públicos. Ali, os servidores enfrentavam enormes filas, o que fazia com que perdessem um dia de trabalho – ônus para os dois lados. Reuniões feitas e pleito aceito por parte do Tribunal, em meados da década de 60, o TRT-2 tornou-se o segundo órgão do país a receber via banco. O primeiro tinha sido, pouco antes, o Tribunal de Justiça de São Paulo.

Em nome da associação, Totó, Maurício e os demais colegas lutaram pelos direitos dos servidores, garantindo aumento de salários, que eram feitos pelo próprio Tribunal, após votação. A dificuldade, porém, era conseguir o número adequado de juízes votando a seu favor. Totó e Maurício chegaram a ir para outro estado atrás de um juiz do TRT-2 para conseguir uma votação favorável. Eram, de fato, outros tempos.”

Trecho do artigo “Um grande contador de causos”.
Festa de Natal nas dependências do TRT-2 em 1959. A Associação dos Funcionários da Justiça do Trabalho se encarregava de organizar festas e homenagens, além de se engajar na melhoria das condições de trabalho dos funcionários. Fonte: edição de 24 de dezembro de 1959 do jornal “Correio Paulistano”.

Algumas das facilidades e direitos básicos que servidores usufruem nos dias atuais foram alcançados com o engajamento dessa primeira geração. Maurício, além dessas atividades locais, também foi membro efetivo e ativo do Congresso Nacional dos Servidores Civis do Brasil, que passou a ser organizado a partir de 1972, pela Associação dos Servidores Civis do Brasil. Nesses eventos eram debatidos os rumos das organizações de servidores públicos, elaboradas as pautas de reivindicação salarial e também os projetos de lei voltados à regulamentação da categoria em âmbito nacional.

Certificado de participação de Maurício Lenine Pires no Primeiro Congresso Nacional de Servidores Civis do Brasil. No ano de 1972 foram discutidos os seguintes assuntos: aposentadoria aos 25 e 30 anos, paridade salarial entre os servidores de todas as  áreas e poderes, dignificação da função pública, novo Estatuto e implantação do novo Plano de Classificação de Cargos. Fonte: acervo do TRT-2.

O multifacetado Maurício

O “Grande Jornal Falado Tupi” foi criado em 1941, por iniciativa de Armando Bertoni e Carlos Rizzini, diretores dos “Diários Associados”, com o intuito de ser um grande informativo, que traria as notícias normalmente veiculadas nos jornais impressos, para os rádios.

Para encabeçar a empreitada foi chamado Corifeu de Azevedo Marques, que na época era redator do “Diário da Noite” e figura importante do jornalismo. A primeira edição foi transmitida no dia 1º de abril, sob o olhar atento de Assis Chateaubriand (primo, por sinal, de Salustiano Magno Bandeira de Mello, um juiz vogal da primeira formação do Conselho Regional do Trabalho da 2ª Região) e Napoleão de Carvalho, grandes magnatas da comunicação. Logo se tornou a referência do rádio para as informações diárias daqueles que não tinham acesso aos jornais que circulavam pela cidade, além de ser transmitido todas as noites, reunindo, assim, as notícias do dia todo.

Maurício Lenine Pires foi um de seus fundadores, compondo os primeiros quadros de funcionários da Rádio Tupi, integrando a redação do radiojornal em seus primeiros anos. Por décadas foi redator especializado do “Grande Jornal Falado Tupi”, tarefa complexa e muito trabalhosa que consistia em construir as pautas e anúncios dos locutores.

Em comparação aos dias atuais, nos quais os grandes portais de notícia se atualizam constantemente com informações do mundo todo, o trabalho que Maurício realizava era artesanal. As compilações precisavam ser feitas por meio de diferentes jornais que chegavam às suas mãos e pela reunião de informações colhidas nos programas locais de rádio. O trabalho de recorta e cola, tão comum hoje nos processos de edição no computador, era feito manualmente, literalmente com tesoura e cola, montando com as manchetes e destaques aquilo que seria noticiado. Depois, era o trabalho de redigir as pautas de forma a serem facilmente lidas pelos locutores. “Cortava as notícias em pedacinhos, corrigia, e colava todos juntos para o locutor ler durante a transmissão”, lembra.

Abertura da edição de “O Grande Jornal Falado Tupi” do dia 3 de abril de 1942. Fonte: Memorial da Democracia.

Na década de 1940, despontavam o “Repórter Esso”, da Rádio Nacional, maior emissora da época, e o “Grande Jornal Falado Tupi”, na Rádio Tupi de São Paulo. Eram os mais importantes radiojornais, frequentemente retransmitidos por outras emissoras por todo o país.

As notícias selecionas e reescritas por Maurício chegavam às pessoas do Brasil todo, na voz dos locutores. O “Grande Jornal Tupi” foi considerado o primeiro “jornal de integração nacional”, pois era ouvido por todo o interior do país. As chamadas das manchetes começavam às 9h da noite, e o noticiário, efetivamente, passava a ser transmitido às 22h, indo até as 23h. Foi o primeiro noticioso a se preocupar em elaborar as notícias adaptando-as ao rádio. Criaram, junto com o “Repórter Esso”, uma nova linguagem e uma nova forma de comunicação, processo do qual Maurício participou.

Sua rotina era atuar na Justiça do Trabalho e, finalizado o expediente, correr até a sede dos Diários Associados para dar início a sua segunda jornada. Para sua sorte, naquela época, o TRT-2 ocupava prédios no centro da cidade, e a redação do “Grande Jornal Falado Tupi” estava localizada na rua 7 de abril, na sede dos Diários Associados, próximo ao Teatro Municipal. Era um pulo das minutas e expedientes da Justiça do Trabalho até a redação das notícias que iriam circular pelo Brasil todo, no final da noite.

Em 1969, em uma matéria publicada no “Jornal da Noite”, em comemoração aos 27 anos do “Grande Jornal Falado Tupi”, Maurício Lenine Pires aparece entre seus colegas de redação. É difícil compreender como ele conseguia conciliar dois trabalhos tão exigentes, como o de chefe de secretaria (atual diretor de secretaria) e de redator especializado em um dos programas de rádio mais importantes do século XX no Brasil. Seu duplo expediente começava logo cedo e se estendia até perto da meia noite.

Destaque da edição de 2 de abril de 1969 do jornal “Diário da Noite”. Fonte: acervo Diário da Noite/Hemeroteca Nacional.

Em uma de nossas conversas com Maurício, o servidor relatou que, uma vez aposentado, decidiu cursar a faculdade de História, na USP, pois tinha a intenção de escrever um livro sobre a História do Rádio no Brasil, tema sobre o qual possui muita experiência e conhecimento. Formou-se, mas o livro não saiu. Contudo, muitas outras histórias foram protagonizadas pelo nosso colega, tanto na redação da Tupi quanto na secretaria da 6ª Junta de Conciliação e Julgamento da Capital.

Lições

Maurício Lenine Pires se aposentou em 1º de julho de 1976, depois de quase 35 anos de serviços prestados à Justiça do Trabalho. Ele viu a Justiça do Trabalho nascer e se ampliar. Também participou de várias mudanças de prédio, de legislação e de presidentes. Quando se aposentou, o CRT-2 de apenas seis juntas na capital, já era um TRT-2 com 32 Juntas de Conciliação e Julgamento. Contudo, Maurício continuou ativo e passou a dedicar seu tempo às leituras e pesquisas sobre temas espirituais. Uma de suas obras, resultado de anos de compilação de material, está disponível aos entusiastas do tema: “Mundo Espiritual: dicionário temático”, contando com dezenas de verbetes sobre o assunto. Na obra, publicada em 2012, a orelha do livro traz uma boa descrição de sua trajetória e das atividades que passou a desenvolver após se aposentar no TRT-2:

O autor está na faixa dos oitenta e tantos anos de idade e tem larga experiência de vida, tendo sido funcionário público durante trinta e cinco anos na Justiça do Trabalho, tendo iniciado aos 14 anos como estafeta e se aposentando como Escrivão que é a denominação atual. Foi jornalista profissional durante quase trinta anos, principalmente como jornalista de rádio (radio jornalista), tendo iniciado na famosa Rádio Tupi de São Paulo de então, integrando os Diários e Emissoras Associados, como receptor de noticiário e terminado como editor do importante ‘Grande Jornal Falado Tupi’. Estudou na Universidade de São Paulo, tendo se formado em História. Hoje em dia é o denominado Terapeuta Holístico, com dezenas de cursos nessa área, trabalhando principalmente na cura de dores dos seus pacientes. Concluiu curso de hipnólogo com o famoso dr. Carlos Natali, PhD., autor de mais de sessenta livros.

Maurício Lenine Pires, “Mundo Espiritual: dicionário temático”.

Essa é mais uma faceta do pioneiro Maurício Lenine Pires, em sua trajetória inspiradora. Ainda, do prefácio dessa obra, retiramos uma reflexão/lição, que explica o porquê dele ter sido tão paciente diante das constantes ligações e perguntas, que nós, do Centro de Memória, fizemos a ele. Assim como a equipe do CM do TRT-2, Maurício sempre foi um insistente e “constante perguntador”.

“Sempre fui um bom e constante perguntador. Quem pergunta tem dúvida, quer esclarecer algum ponto de vista, alguma particularidade de um problema. Às vezes eu chegava a importunar. Queria respostas. E as questões são muitas vezes insolúveis ou realmente impossíveis de se chegar a uma possível conclusão.”

Após 80 anos de sua instalação, a Justiça do Trabalho passou por diversas mudanças, superou obstáculos econômicos e políticos e se tornou um dos pilares do estado democrático de direito no Brasil. Dessa longa história participaram muitos como Maurício, pessoas dedicadas que fizeram suas vidas profissionais nos corredores do TRT-2.

Entre advogados, jurisdicionados, servidores e magistrados, é muito difícil relatar a história de toda essa gente, e como nosso colega nos ensina, às vezes, uma conclusão definitiva pode ser impossível, mas nos motiva a continuar perguntando e pesquisando. Por isso, ao descrever a trajetória de Maurício Lenine Pires, nosso colega que integrou os quadros do TRT-2 no longínquo ano de 1941, o Centro de Memória busca homenagear todas essas pessoas e divulgar um pouco (uma “particularidade”) da história da octogenária Justiça do Trabalho.

Memórias Trabalhistas é uma página criada pelo Centro de Memória do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, setor responsável pela pesquisa e divulgação da história do TRT-2. Neste espaço, é possível encontrar artigos, histórias e curiosidades sobre o TRT-2, maior tribunal trabalhista do país.

Acesse também o Centro de Memória Virtual e conheça nosso acervo histórico, disponível para consulta e pesquisa.


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Publicado por Lucas Lopes de Moraes

Antropólogo, graduado em ciências sociais, possui mestrado e doutorado em antropologia no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da USP. Possui experiência em pesquisa e análise de dados qualitativos e em projetos de acervo. Colecionador de discos, apaixonado pela etnografia e pelo trabalho de campo, defende que as trajetórias de pessoas e coisas são a maior fonte de conhecimento. É servidor do TRT-2 desde 2015.

6 comentários em “MAURÍCIO LENINE PIRES: UM SERVIDOR POLIVALENTE

  1. Prezado Lucas, há um erro na idade do Mauricio, ele completará 94 anos em 2021 (já que nasceu em 1927).
    Como é tese de doutorado, isso pode comprometer a veracidade de seu trabalho, correto?

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