PARCEIROS DA MEMÓRIA: SCHEILLA REGINA BREVIDELLI

AVENIDA IPIRANGA, 1225

Durante 13 anos da minha trajetória pelo Tribunal, esse foi o meu endereço de trabalho. O local que testemunhou o início da minha jornada profissional, a princípio na 4ª Junta de Conciliação e Julgamento, onde trabalhei por três anos e meio como notificadora.

Em 1994, impulsionada por um desentendimento com colegas e também por uma sede de aprender novas tarefas naquele ambiente jurídico tão diverso à minha formação original como psicóloga, fui trabalhar na 7ª Junta de Conciliação e Julgamento.

Scheilla Brevidelli
Scheilla Brevidelli, ao lado dos colegas da 7ª Junta de Conciliação e Julgamento de São Paulo. Fonte: fundo Scheilla Regina Brevidelli / acervo TRT-2.

Até hoje me lembro que fui dispensada depois do almoço e depois de escovar os dentes, subi os três andares que me separavam da minha nova lotação. Fui subindo pelas escadas apertadas, levando comigo uma cadeira pessoal, mais confortável que as originais e um cesto de lixo e entrei assustada pela porta do meu novo local de trabalho.

Meu novo diretor, com um olhar de estranheza, me perguntou por que eu deixava a 4ª Junta e achou engraçado eu entrar carregada com tantas coisas pessoais. Mas, nos anos 1990, onde ergonomia não era uma preocupação no local de trabalho, era até comum colegas comprarem cadeiras ou encostos para ter mais conforto durante o expediente. Eram tempos muito diversos dos atuais.

Na 7ª Junta pude finalmente saciar minha sede de novos aprendizados, porque me foi dada a oportunidade de aprender as mais diversas tarefas, além da notificação, serviço no qual eu já era especialista.

Eram tempos em que escrevíamos na máquina de escrever manual ou no máximo na elétrica. As notificações eram feitas em carbono, com a cópia anexada aos autos. Na Seção da Avaliação e Destinação Documental pude reencontrar esses processos da 4ª e 7ª Juntas e pude rever todo o capricho que eu tinha com a cópia carbonada, que saía na posição exata da original. Anos mais tarde, meu antigo diretor disse que eu era a notificadora mais rápida que ele conheceu. Coitado do Francisco, o balconista, que tinha que suportar a avalanche do público no balcão depois que eu esvaziava as gavetas de notificação!!! Ele reclamava com razão comigo!!

A servidora Scheilla Brevidelli ao lado de processos pertencentes ao acervo do TRT-2, na época em que estava lotada na Seção de Avaliação e Destinação Documental. Fonte: fundo Scheilla Regina Brevidelli / acervo TRT-2.

O prédio da avenida Ipiranga era um dos mais confortáveis de todos os outros que integravam o centro velho de São Paulo. Cada andar abrigava uma junta, com salas amplas e separadas em ambientes diversos.

Havia apenas dois elevadores pequenos para um grande fluxo de pessoas, o que acarretava enormes filas em torno do prédio, principalmente nos horários de pico de realização de audiências. Era necessário que tivessem dois ascensoristas, que comandavam as paradas em cada unidade do elevador.

Bebedouros externos e banheiros públicos estavam localizados em andares específicos, o que dificultava muito o conforto dos advogados e das partes. O balcão aberto e os armários verdes de metal eram uma marca daqueles tempos.

Em minhas lembranças, esse prédio abriga muitas histórias… Mesmo sem wathsapp, as notícias se espalhavam pelo prédio. Um dia meu diretor me avisa que estava ocorrendo uma audiência com Chitãozinho e Xororó na 1ª Junta. Desci imediatamente e fiquei forçando a porta para entrar. Mas estava trancada? Não, era o juiz classista segurando a mesma para evitar a bagunça que já havia se instalado. Mas como ele me conhecia, deixou eu olhar a mesa por alguns segundos. Eles eram baixinhos, pude constatar, mesmo os vendo sentados!!!

Outro dia soubemos que o Clodovil estava na 12ª Junta. Lá fui eu bisbilhotar e pude ver o estilista sentado, num modelo casual chic, com um jeans impecável e uma camisa muito elegante. Eu adorava ouvir o Clodovil na TV Mulher e em outros programas da época!! A gente se divertia com pequenas coisas!!!

Naqueles tempos a gente encontrava pelas escadas o doutor Homero, que era assistente de juiz da 13ª Junta, mas já era famoso por ser muito estudioso!!! E a Denise Alcântara era a secretária de audiências da 6ª Junta, sempre exalando calma e simpatia!!!

Scheilla ao lado da servidora Denise Alcântara. Fonte: fundo Scheilla Regina Brevidelli / acervo TRT-2.

Aquele era um prédio muito quente no verão, usávamos um ventilador enorme na sala para aliviar. E era muito frio no inverno, época em que tentávamos fechar bem as janelas para não sofrer.

Foi nesse prédio que vivemos todos a época do apagão da energia elétrica, nos anos 2000. Que confusão todo mundo entrar às 8h e sair às 16h!!! Os horários antigamente eram bem rígidos, todos faziam das 11h às 19h, com exceção apenas para estudantes. Foi uma grande novidade a alteração do horário. E é claro que tinha colega que só saía da Junta depois que o segurança passava desligando a energia…

Nessa época marcávamos a presença com cartão de ponto em cartolina, num relógio de ponto com chapeira ao lado. O zelador atrasava cinco minutos o relógio antes da nossa chegada e adiantava o mesmo período na nossa saída… Aquela tolerância dos 15 minutos não existia…

Detalhe de máquina de controle de ponto e de modelos de carteiras funcionais e crachás usados por servidores e magistrados do Tribunal ao longo dos anos. Fonte: acervo TRT-2.

O setor médico ficava apenas na Rua da Consolação. Quando os servidores tinham alguma emergência ou sentiam algum mal estar, usavam o ambulatório da OAB. Eu mesma fui lá por diversas vezes, com pressão baixa ou com cólica e era muito bem recebida pela médica que fazia o plantão ali… Estabeleceu-se uma parceria orgânica e muito bonita com a OAB…

O refeitório ficava no sétimo andar. Era um grande marmiteiro com água, ligado na tomada onde a gente colocava a comida. Tinha dia que a água invadia a marmita, no outro alguém esquecia de desligar o equipamento ao sair e queimava a tomada… Tinha gente que ficava sem a mistura, porque alguém roubava, e xingava de raiva pela comida que faltava!!! Mas era um grande local de reunião dos colegas e entrosamento com pessoas de outras Juntas. Era muito divertido!!!

Havia também o setor de Contadoria, onde eram enviados alguns processos mais simples para homologação de cálculo, para não onerar os autos com perícia.

No ano de 1999, o Contru interditou o prédio por falta de segurança contra incêndio. Foi no dia 19 de outubro, eu me lembro porque era na data de dois dias antes do meu aniversário. Então fomos cada qual realocado em novas Juntas, em outros prédios pelo período de seis meses, até a reforma que facilitava a saída da fumaça terminar e o prédio reabrir.

Vivemos muitas histórias na avenida Ipiranga, 1225… Até o dia em que realizamos a mudança de todo o fórum para a Barra Funda, no prédio do Ruy Barbosa… Carregamos os processos, nosso afeto, nossas lembranças e nossas esperanças para o novo endereço…


Scheilla Regina Brevidelli é servidora do TRT-2 desde 1991. Formada em Psicologia e em Direito, atou na primeira e na segunda instâncias. É poetisa e possui três livros publicados: “Flores que voam”, “Hilstianas v.1” e “Seu escrito era uma voz”. Mantém ainda um blog, o “Uma Prosa Boa”, e um perfil no Instagram, o @scheillabrevidelli_arte. Atualmente, está lotada na Seção de Psicologia.


CONFIRA OUTROS TEXTOS ESCRITOS POR SCHEILLA

Memórias Trabalhistas é uma página criada pelo Centro de Memória do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, setor responsável pela pesquisa e divulgação da história do TRT-2. Neste espaço, é possível encontrar artigos, histórias e curiosidades sobre o TRT-2, maior tribunal trabalhista do país.

Acesse também o Centro de Memória Virtual e conheça nosso acervo histórico, disponível para consulta e pesquisa.

Publicado por memoriatrt2

Aqui neste perfil, você encontra os textos produzidos por colegas que contribuem para a produção de conteúdo dentro do Centro de Memória do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, setor que surgiu no segundo semestre de 2017, com o objetivo de pesquisar e divulgar a memória institucional do TRT-2.

Um comentário em “PARCEIROS DA MEMÓRIA: SCHEILLA REGINA BREVIDELLI

  1. Adorei ler essas lembranças porque ingressei no TRT em 1990, na ocasião junto à 45a. JCJ/SP e, por vezes, tinha que ir até o prédio localizado na Av. Ipiranga por conta do serviço, onde fiz algumas boas amizades. Hoje tenho saudades. 🙂

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